“Cada pessoa tem a sua historia. - Cada pessoa tem uma familia. - Cada familia tem origems. - Você não é apenas o que você imagina que é!"


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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Emma de Barros - Emma Maria Florentina von Körmendy ( 1861-1953) CAPITULO 1 - origens

A "BRASILIANIDADE" JURÍDICA E AS ORIGENS DA FAMÍLIA KÖRMENDY-BARROS
A "brasilianidade" na minha família era uma história jurídica e não cultural. Os "brasileiros" na minha família foram o meu avô Viktor Franz Xavier, os seus irmãos Luiz Bento e Paulo Xavier como os seus respetivas mulheres austriacas, e a mãe deles, a hungara Emma von Körmendy (ou Emma de Barros). Culturalmente, meu avô e seus irmãos  foram europeus, criados na cidade de Viena e com a cultura húngara por parte de Emma que foi criada na Hungria.
A cidadania brasileira era o ponto central no histórico da nossa família, que é composta por muitas trajetórias diferentes e é uma esfera completamente diferente, que não tem nada a ver com a lavoura ou com o fluxo migratório de subsistência. Ao contrário!  Mostra o percurso de uma diaspora brasileira, bastante singular. Mostra como as pessoas podem ter conexões históricas com o Brasil sem necessariamente se identificarem com os aspectos mais controversos do passado.
A breve passagem (cerca de 3 anos) da minha bisavó húngara pelo Brasil não é um detalhe irrelevante, mas sim o evento-chave que desencadeou o restante da história, que em nossos olhos tem relevância e singularidade da narrativa. Essa narrativa não engloba apenas os 3 anos de sua permanência física em solo brasileiro, mas sim os 10 anos (1885–1895) de toda a saga do casal, desde o encontro em Viena até a partida definitiva do Brasil.
Ao deixar o Brasil, Emma não leva consigo a cultura do café ou os costumes paulistas, não. A sua cultura era europeia. Ela leva consigo a certidão de casamento e com isso o passaporte brasileiro. Durante as turbulências da Primeira Guerra Mundial e a dissolução do seu império natal (1918), ela e seus filhos não se tornam apátridas nem cidadãos de repúblicas europeias falidas: juridicamente, eles são brasileiros no exterior.
Inicia esta história entre os anos 1885-1889 na cidade de Viena, onde Emma von Körmendy, com 24 anos, conhece o Dr. Bento Xavier de Barros, de 25 anos, filho do barão de Tatuí, um membro da elite de São Paulo, brasileiro, vindo para estudar medicina forense com os então famosos professores Eduard Ritter von Hofmann e Theodor Billroth. Na época, a cidade de Viena era o topo pela medicina e ciência. 
Para entender QUEM era Emma de Barros, née von Körmendy, é necessário conhecer a história dos seus pais e da Hungria, como a do Império Austro-Húngaro de então.
ORIGENS
Emma Maria Florentina von Körmendy nasceu em 2 de outubro de 1861 em Pinkafő, então Hungria. Ela foi a oitava criança dentro dos 11 filhos de Josef Eduard von Körmendy e de Johanna Salmutter.
Johanna, a mãe de Emma, descendia da família Salmutter, residente em Kindberg, na Estíria, parte da Áustria. Os Salmutter pertenciam aos Hammerherren (os "senhores dos martelos"), uma elite tradicional e influente que controlava a mineração e o processamento de ferro na região entre os séculos XVI e XIX. Esta atividade siderúrgica moldou profundamente a história local e ligou de forma indelével o passado familiar e a vida dos avós maternos de Emma a esta célebre classe de industriais.
A própria Estíria, que hoje integra o território da Áustria, carrega uma identidade singular moldada pelas suas origens medievais como uma antiga zona de fronteira do Sacro Império Romano-Germânico. Foi nesse cenário estratégico que os Salmutter e os restantes Hammerherren se ergueram como figuras fundamentais para o desenvolvimento económico e cultural de Kindberg, deixando um legado que permanece visível até aos dias de hoje através das imponentes casas senhoriais que ainda pontuam a paisagem da região. O casarão dos Salmutter ainda existe.
Em vez disso, seu pai, Josef Eduard de Körmendy, era húngaro e pertencia à "gentry", a média e pequena nobreza que formava o corpo principal da nobreza normal da Hungria. Ele nasceu em Németbóly, no comitato (condado) de Baranya, uma região estratégica marcada pelo longo domínio otomano e pelo posterior repovoamento promovido pelos Habsburgos. Josef Eduard era filho de um jurassor (juiz) e Komitatskomissär (comissário do comitato). Na Hungria da época, esses cargos públicos e jurídicos eram prerrogativas exclusivas da nobreza provincial. Esse fato, por si só, demonstra que sua família tinha grande importância e prestígio local.
É importante saber que o Império Austro-Húngaro foi uma monarquia dual que uniu duas grandes nações da Europa Central sob um único monarca, a Dinastia de Habsburgo. O Império Austríaco e o Reino da Hungria tornaram-se entidades constitucionalmente iguais.O território foi dividido pelo rio Leitha (conhecido como Cisleitânia e Transleitânia): A Metade Austríaca: Com capital em Viena, abrangia povos como austríacos, checos e polacos. O monarca governava esta parte como Imperador. A Metade Húngara: Com capital em Budapeste, o território era o Reino da Hungria, governado pelo monarca como Rei. Incluía terras da coroa como a Croácia-Eslavônia.
Áustria e Hungria tinham parlamentos, governos e constituições independentes. Partilhavam apenas três pastas ministeriais: Negócios Estrangeiros, Assuntos Militares e Finanças.
A Estíria (Steiermark, em alemão) era uma região que pertencia à metade austríaca do Império, localizada no sudoeste da atual Áustria. Fazia parte dos Países Hereditários dos Habsburgos originais. Era um ducado (Herzogtum Steiermark) central dentro da Cisleitânia. A sua capital era Graz e a sua população era maioritariamente composta por alemães austríacos, com uma forte minoria eslovena na parte sul da região (Baixa Estíria). Como território austríaco, a Estíria estava sujeita diretamente às leis e à administração de Viena.
A GENTRY HÚNGARA
O termo "gentry" pode soar estranho para quem não conhece a história húngara, mas ele é a chave para compreender a identidade social de Emma Maria Florentina. No Brasil Imperial ou na República Velha, a elite consolidava-se por títulos outorgados pelo Imperador (como os Barões do Café) ou pelo puro poder econômico dos latifúndios. Na Hungria, a dinâmica era diferente: a gentry (birtokos nemesség) não dependia de títulos de corte — como Conde ou Duque — para exercer sua soberania. Frequentemente chamada de bene possessionati (proprietários de posses modestas), essa fidalguia definia-se por seu estatuto jurídico.
A diferença entre a gentry e os magnatas (a altíssima aristocracia, como as famílias Esterházy, Batthyány ou Széchenyi) no reino da Hungria não era jurídica, mas sim de riqueza e poder. Por lei, qualquer nobre húngaro, por mais empobrecido que fosse, partilhava teoricamente dos mesmos privilégios que um príncipe. Ao contrario do Brasil tratava-se de um estatuto inteiramente hereditário, impresso no sangue e protegido por lei, que se estendia automaticamente até os trinetos e que permaneceu inabalável até a dissolução do Império em 1918.. Contudo, enquanto os magnatas donos de latifúndios gigantescos orbitavam a corte de Viena, a gentry possuía propriedades médias ou pequenas. Como suas terras não geravam grandes fortunas passivas, essa classe transformou-se no motor administrativo, político e jurídico do reino.

O avô paterno de Emma - comissário de comitato (komitatskomissär) e Juiz "jurassor" na Baranya - era um homem livre. Ele atuava como um elo essencial entre os grandes latifundiários — como a poderosa família Batthyány — e os camponeses subjugados. O cargo de jurassor era exclusivo: apenas os membros da gentry húngara podiam exercê-lo. Não eram homens pobres; possuíam propriedades de terra, embora longe da escala monumental dos Batthyány e de outros grandes clãs. No entanto, em termos de nobreza e estatuto social, eram absolutamente iguais a esses magnatas, diferenciando-se apenas por possuírem uma fortuna menor.
A educação era a maior arma da gentry. O latim foi o idioma oficial do Parlamento húngaro (Dieta) e da administração pública até 1844. Dominar o latim separava a elite política do povo comum e servia como resistência cultural contra a centralização de Viena. Para navegar no Império, esse grupo dominava o latim para as leis, o alemão para se comunicar com a corte austríaca, e o húngaro (ou dialetos locais) para gerir suas terras e as assembleias provinciais. Sendo especialistas em Direito, eles controlavam os tribunais como juízes e advogados, blindando seus privilégios locais.

Essa combinação de liberdade jurídica e alta instrução fez da gentry a classe que liderou os movimentos liberais e a Revolução de 1848 contra o Império Austríaco. As bases dessa revolta desenharam-se nas décadas de 1830 e 1840, coincidindo com um forte boom demográfico em Baranya. Para unificar a nação contra Viena e ganhar o apoio militar dos camponeses, a gentry foi obrigada a abolir o feudalismo e as obrigações servis. Com a abolição, a gentry perdeu a mão de obra camponesa gratuita. Ao mesmo tempo, o crescimento demográfico fragmentou as propriedades rurais entre muitos herdeiros. Longe de se renderem à decadência econômica, os jovens da gentry souberam se reinventar e assumiram um papel inesperado: eles se tornaram os líderes intelectuais, técnicos e executivos da própria Revolução Industrial húngara.
O grande polo dessa transformação foi a prestigiada Academia de Mineração e Florestas de Schemnitz/Selmecbánya (hoje na Eslováquia). Inicialmente, a gentry via o trabalho técnico com preconceito, considerando-o "burguês". No entanto, já no início do século XIX, a Academia tornou-se uma das instituições de engenharia mais respeitadas do mundo. Ao perceberem que o conhecimento científico era o novo vetor de poder, as famílias nobres passaram a enviar seus filhos para lá.
Ao unirem o prestígio do seu sangue nobre à alta qualificação técnica, os jovens da gentry assumiram o topo da pirâmide industrial. Eles não eram operários, mas sim os engenheiros-chefes, diretores-gerais e tecnocratas que comandavam os grandes complexos de mineração, as companhias ferroviárias e as usinas metalúrgicas do país. No campo, lideraram a modernização criando indústrias agroalimentares de grande escala.



JOSEF EDUARD DE KÖRMENDY E O ESPÍRITO CIENTÍFICO
Josef Eduard de Körmendy (nascido em 1816) foi o reflexo exato dessa liderança tecnocrática. Em vez de se limitar ao passado do seu pai e dos avós (juízes na província rural), ele adquiriu uma sólida formação técnica como "montanista" .
Nota Histórica para o leitor brasileiro: Ao contrario do que o termo no Brasil poderia significar, na Europa o termo montanista (Montanist) designava um cientista e engenheiro de minas de altíssimo prestígio acadêmico. Formados em academias de ponta, esses profissionais dominavam a geologia, a metalurgia e a química de laboratório. Eles atuavam como tecnocratas e peritos oficiais do Estado, comandando a infraestrutura pesada, as ferrovias e a Revolução Industrial do Império Austro-Húngaro. Josef Eduard pertencia a essa elite científica urbana.
Joseph Eduard von Körmendy, da pequena nobreza húngara (filho do jurassor e comissário), era um cientista de minas (engenheiro de minas) de formação que hoje se pode descrever universitária.
Na década de 1850, aos 34 anos, ele já atuava como Eisenwerk-Inspektor na usina Theresien-Hütte, em Ternitz, na Áustria. Um Eiseninspektor era um engenheiro metalúrgico e perito oficial da ferrovia estatal austríaca (k.k. Staatseisenbahn). Era um cargo público de alta responsabilidade, que operava na transição entre o governo, a ciência e a nascente indústria pesada. Como a fábrica de Ternitz era a principal fornecedora de trilhos para o governo, a presença de Josef Eduard ali era obrigatória e estratégica: ele atuava como o líder técnico e fiscal regulador do Estado dentro da usina mais importante do país.
Em 1851, ele casa com Johanna Salmutter, filha de um noto Hammerwerker em Kindberg, de família abastada. O casal mora em Ternitz, onde nasceram os primeiros dois filhos (1852 e 1853).
Em 1854, Körmendy deixa Ternitz e muda-se para Wiener Neustadt. Wiener Neustadt e Viena são cidades totalmente diferentes. Enquanto Viena era a capital política e da corte, Wiener Neustadt — localizada a 50 km de distância em Niederösterreich — era o coração industrial e metalúrgico da Áustria, no centro entre a Estíria, a Hungria e a cidade de Viena.
Theodor Ponson, engenheiro civil de minas de nacionalidade belga e autor do principal tratado internacional sobre extração mineral de sua época (Traité de l'exploitation des mines de houille, 1852), era muito conhecido na época na Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha e no império dos Habsburgos. Ele trabalhou diretamente com Körmendy em Wiener Neustadt, um dos polos industriais e metalúrgicos mais avançados do Império Austríaco. Dessa colaboração prática nasceram inovações tecnológicas que lhes renderam a concessão de patentes exclusivas por um período de quatro anos na legislação imperial austríaca. O vínculo profissional consolidou-se em uma aliança pessoal definitiva quando Ponson tornou-se padrinho de batismo da filha de Körmendy, nascida em 1853, fixando formalmente o nome do renomado cientista belga nos registros eclesiásticos da família.
Em 1859, Joseph Eduard adquire e passa a explorar minas de carvão e antimônio nas proximidades de Szalónak e Mariasdorf, no leste da Áustria-Hungria, muito perto da cidade de Viena, mas parte do reino húngaro. Sob sua gestão, a extração de carvão é ampliada e as terras adjacentes são desenvolvidas, gerando empregos e transformando-se em um motor econômico para toda a região. Plantas técnicas, análises químicas detalhadas e o trabalho de laboratório definiam o ambiente intelectual em que os filhos cresceram.
O impacto da família foi tão profundo que ficou gravado na rocha: na história local da mineração (em área que hoje pertence à Áustria), os nomes dos túneis permanecem como um marco conhecido. quatro desses túneis de extração foram batizados com os nomes de seus filhos ( todos ainda existentes, mas desativados) . Ao assumir o controle e a administração da mina de antimônio em Mariasdorf (perto de Szalónak/Stadtschlaining), ele passou a trabalhar no casarão administrativo já existente no local, para onde em 1863 a família mudou-se.
Em 1869, estabelecido economicamente e como reflexo do sucesso dessa nova geração nobre e técnica, ele transformou aquela antiga residência de trabalho no "Antimonschlössl" ("O Pequeno Castelo do Antimônio"), uma vasta e imponente casa senhorial situada neste vale perto de Mariasdorf e Stadtschlaining, coroando-o com a famosa torre de estilo romântico, bem conhecido na região e ainda existente e em mão privada. Ali nascem mais duas filhas e, por fim, o caçula August, em 1874.
Em um ambiente cosmopolita e "aristocrático", os filhos cresceram dominando fluentemente três idiomas: o húngaro, o alemão e o francês. Ao todo, Joseph Eduard e Johanna Salmutter tiveram 10 filhos (8 filhas e 2 filhos), após a perda do primogênito logo após o nascimento em 1852.
Em paralelo ao crescimento da família, a filha mais velha, Aloysia (nascida em 1853), realizou em 1873 um casamento de grande prestígio social e político na região. Ela uniu-se a Franz Schmidt, filho de um abastado industrial que, em 1860, havia adquirido o histórico Castelo dos príncipes Batthyány em Szalónak. O casal fixou residência no castelo, onde Franz Schmidt consolidou-se como uma das figuras mais importantes e influentes da sociedade local, não somente como industrial, mas também como latifundista, porque o castelo tinha vastas terras.


No entanto, em 1873, a estabilidade financeira de Joseph Eduard foi duramente abalada pelo famoso Bankenkrach (o colapso da Bolsa de Viena). Naquela época, a operação de minas de grande porte dependia diretamente de linhas de crédito sustentadas por grandes credores. Com a eclosão da crise sistêmica, esses credores, tomados pelo pânico financeiro, exigiram o pagamento imediato e integral de todas as dívidas — uma exigência de liquidez impossível de cumprir naquele momento de contração de mercado. O nascimento do último filho, August, em 1874, coincidiu dramaticamente com este período.
OS SALÕES VIENENSES E O BILDUNGSBÜRGERTUM
Em 1881, Joseph Eduard von Körmendy transfere-se para a capital imperial, Viena, acompanhado de suas cinco filhas solteiras, incluindo Emma. Joseph Eduard estabeleceu-se na metrópole com o sólido estatuto de privatier. Longe de ser um refugiado econômico, ele era um homem que vivia de seus próprios rendimentos, capitais e investimentos privados decorrentes da liquidação de seus negócios minerais e industriais.
Viena, naquele final de século XIX, expandia-se justamente impulsionada por essa elite vibrante de privatiers, engenheiros e investidores. As irmãs Körmendy circulavam com naturalidade neste ambiente cosmopolita e multilíngue (dominando o húngaro, o alemão e o francês), onde o prestígio vinha da alta educação, do capital financeiro estável e da sofisticação cultural. Frequentaram os "salons" de cientistas e músicos.
Cabe talvez explicar que estes salões não eram como os saraus da elite em São Paulo. Enquanto em Viena os salões se fragmentavam e se especializavam por afinidade ideológica e intelectual (reunindo pessoas que pensavam igual), em São Paulo os saraus da elite cafeeira eram muito mais homogêneos e familiares. O sarau paulista funcionava como um bloco único da elite agrária para celebrar a si mesma, sem essa profunda divisão entre o salão do "cientista radical", o salão do "nobre conservador" o o salão do "artista de vanguarda" que Viena possuía.
Os Körmendy não foram da classe da alta aristocracia austríaca; como gentry húngara, eles faziam parte do "Bildungsbürgertum", da classe alta da burguesia cultural na cidade de Viena. O Ponto de Encontro não era a "família", mas a Ciência e a alta educação como Niveladora Social. Enquanto os salões aristocráticos de Viena focavam em títulos de nobreza e os literários em filosofia, os salões de interesse científico criaram uma ponte inédita com o Bildungsbürgertum vienense: funcionários públicos de alto escalão, médicos, químicos e intelectuais urbanos que acreditavam que o status vinha do conhecimento (Bildung) e não do sangue.
Nos salões vienenses voltados à ciência e à economia (como os círculos frequentados por geólogos e membros da Academia de Ciências), a hierarquia tradicional se dissolvia. Como gentry húngara, Körmendy possuía um status jurídico, político e simbólico absolutamente único dentro do Império Habsburg. Em Viena, ele não era visto apenas como um "nobre de província" ou um simples "engenheiro". Ele carregava o peso histórico da nobreza húngara, o que lhe garantia um magnetismo e privilégios especiais nos salões.
Na Hungria, a nobreza não era apenas um título; ela era a própria encarnação jurídica do Estado. A gentry (a média nobreza territorial) governava os condados locais com imensa autonomia frente ao Imperador em Viena. No século XIX, o nacionalismo húngaro estava em plena efervescência e era visto com enorme fascínio romântico em Viena. A gentry era considerada a "espinha dorsal da nação húngara", guardiã da cultura, da língua e do orgulho Magyar. Nos salões liberais e intelectuais de Viena, esse cientista-gentry trazia um ar de "vanguardismo político". Ele debatia a modernização industrial de suas minas não apenas pelo lucro, mas como um projeto patriótico para erguer a Hungria econômica e politicamente dentro do Império.

O ENCONTRO NO DISTRITO UNIVERSITÁRIO
Foi exatamente nessa esfera — o vibrante e abastado meio dos intelectuais e profissionais liberais de Viena, muito próximo ao distrito universitário — que o caminho de Emma von Körmendy cruzou com o do Dr. Bento Xavier de Barros, o jovem médico paulista que viera da aristocracia do café para se especializar na medicina forense.
A capital austríaca já operava sob uma modernidade consolidada, visível na própria dinâmica de suas ruas: na recém-construída Ringstraße, as mulheres circulavam e flanavam com uma independência pública inédita, integradas a uma sociedade há muito habituada ao consumo diário de música, teatro e artes. Tratava-se de um ambiente amplamente cosmopolita, cuja governança e vida cultural não dependiam de elites agrárias.
Na década de 1880, a Faculdade de Medicina da Universidade de Viena era considerada a capital médica do mundo, vivendo o auge da chamada Segunda Escola de Medicina de Viena. O ensino baseava-se em uma integração revolucionária entre o trabalho em laboratório, a patologia anatômica e a observação clínica direta no monumental Allgemeines Krankenhaus (Hospital Geral).
Foi nesse ambiente de excelência que o Dr. Bento Xavier de Barros aprofundou seus estudos sob a influência direta de dois dos maiores luminares da ciência europeia:
Theodor Billroth (1829–1894): Pioneiro absoluto da cirurgia moderna, Billroth transformou a prática médica ao introduzir o mapeamento estatístico de resultados e a análise pós-operatória rigorosa. Suas inovações na cirurgia gástrica e esofágica eram indissociáveis de um profundo humanismo e de uma refinada erudição cultural — ele próprio era um músico talentoso e amigo íntimo de Johannes Brahms, personificando o ideal vienense de que a alta ciência acadêmica deveria caminhar lado a lado com a sofisticação intelectual.
Eduard Ritter von Hofmann (1837–1897): Considerado o pai fundador da medicina legal moderna, Ritter von Hofmann era o diretor do Instituto de Medicina Legal de Viena. Sua abordagem revolucionou os tribunais ao transformar a autópsia e a análise de vestígios em disciplinas científicas exatas, fundamentais para o esclarecimento de crimes. Seu tratado de medicina forense era a bíblia jurídica e médica da época.
RESUMO CAPITULO 1
Emma von Körmendy foi uma jovem da elite cultural austro-húngara, vinda de uma família com sólida tradição jurídica, científica e industrial da antiga média nobreza húngara (gentry). Bem instruída, ela dominava fluentemente três idiomas e frequentava o meio acadêmico do distrito universitário de Viena (salões).
O Dr. Bento Xavier de Barros, brasileiro, membro da extensa família Paes de Barros em São Paulo não era, portanto, apenas um herdeiro de fortunas agrárias flanando pela Europa; ele - falando português e francês estudou o alemão para estudar e era um cientista e medico, integrado ao que a cidade de Viena produzia de mais avançado em termos de lógica, evidência e jurisprudência médica.

O que os une não é a cultura dos seus países nativos, mas a 'igualdade' da classe social, a educação e a nova visão de modernidade e ciência da época..Foi o encontro de dois iguais no mundo intelectual cosmopolito na cidade de Viena da epoca.
Esta epoca não era a imagem da  Belle Époque — cartolas, vestidos longos, valsas e uma elite flutuando em nostalgia. Não ! Era o inicio da "Wiener Moderne".  A  juventude burguesa e acadêmica de Viena entre os anos de 1885 e 1892, encontraria uma energia completamente diferente. Não havia melancolia de fim de festa. Havia pressa, tesão pelo futuro e uma revolta silenciosa contra a hipocrisia da sociedade da "aparencia". .O mundo antigo, baseado nas aparências, na moral rígida  e nas convenções sociais sufocantes, já não fazia mais sentido. Para essa nova geração, a palavra de ordem era : autenticidade. Significava que se a nova ciência  dizia que os seres humanos tinham um mundo interior complexo e desejos reais
Exigiram uma modernidade real, que passava por um desejo  de falar abertamente sobre psicologia, desejos, o corpo humano e as angústias reais, sem filtros moralistas. Mulheres que desafiavam o destino traçado pelas famílias, lutando pelo direito de estudar (os primeiros colégios voltados para preparar mulheres para a universidade surgem exatamente aí, entre 1888 e 1892) e de escolher como e com quem viver. Entre 1885 e 1892, a medicina  na Viena mudou o foco: passou da autópsia de cadáveres para a investigação dos tecidos vivos e do sistema nervoso. A física e a medicina andavam de mãos dadas com a psicologia e a arte da época e assim o "sentido da vida".O médico brasileiro, embora filho de um barão do café, foi profundamente impactado por essa nova era em Viena; Ao longo de quase cinco anos, ele viveu a fundo essa atmosfera de transformação e, ao lado de Emma e de seu espírito livre e hungaro (!), compartilhou o mesmo desejo de modernizaçao e visões sob convenções sociais do passado, moldando ali não apenas sua carreira na medicina forense, mas sua própria visão de vida.

Em breve mais sobre Emma no CAPITULO 2 - O Período Vienense e a Primeira guerra mundial e a os passeportes brasileiros.


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