A História Inversa
A história da minha família segue um caminho oposto ao de muitos brasileiros: enquanto muitos hoje buscam na Europa as suas raízes, nós pesquisamos o Brasil para encontrar a nossa 'outra metade'. Meu avô, Viktor Franz Xavier de Barros, e os seus irmãos Luiz Bento e Paolo Xavier, viveram a vida na Europa, mas carregavam consigo a história de uma influente familia de São Paulo (vindo de Itu e Sorocaba).
Tudo começa com os meus trisavós: o Barão de Tatuí (Francisco Xavier Paes de Barros) e a sua primeira esposa, Gertrudes de Aguiar Barros. A união deles representava o encontro de dois ramos da elite paulista.
Os meus tetravós ilustram o prestígio dessa época:
Por um lado, o capitão Francisco Xavier Paes de Barros (o 'Capitão Chico' de Sorocaba), irmão dos Barões de Itu e de Piracicaba, casado com Rosa Cândida de Aguiar (irmã do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar).
Por outro, Bento Paes de Barros, o 1º Barão de Itu, casado com Leonarda Francisca de Aguiar (irmã de Rosa supra)
Essa rede familiar era vasta e influente. Gertrudes, filha do Barão de Itu, era irmã de figuras centrais como o Dr. Rafael Aguiar Paes de Barros (fundador do Jockey Club), Francisco de Aguiar Barros (casado com Maria Angelica de Souza Queiroz) e o Marquês de Itu. Através desses laços, a nossa história conecta-se a nomes como o de João de Aguiar e Castro, filho da Marquesa de Santos e o brigadiero Raphael Tobias de Aguiar. Como bem documentado pelo historiador Eudes Campos, os Paes de Barros foram arquitetos da sociedade paulistana, e é nessa base sólida que a nossa 'metade brasileira' está fundamentada.
Entre o Brasil e o Império Austro-Húngaro
O elo entre a aristocracia paulista e a pequena nobreza hungara consolidou-se através do meu bisavô, o Dr. Bento Xavier Paes de Barros. Formado em medicina no Rio de Janeiro em 1884, ele partiu para Viena entre 1886 e 1889 para se especializar em medicina forense. Foi na vibrante capital austríaca que ele conheceu a minha bisavó, Emma Maria Florentina von Körmendy.
Emma não era apenas uma jovem austríaca; ela pertencia a uma importante família no Reino da Hungria. Seu pai, Josef Eduard von Körmendy, era um industrial de destaque, proprietário de minas de antimônio e carvão em Pinkafő e Városzalónak, além de ter sido um construtor das ferrovias húngaras. A família de Emma integrava-se à 'gentry' húngara, a classe nobiliárquica que detinha o monopólio das funções administrativas e jurídicas do Estado há centenas de anos. Uma classe histórica que converteu o seu estatuto hereditário antigo de nobreza de sangue em liderança política e econômica na modernização do país. Ela representava, assim, o capital cultural e a tradição histórica da Hungria.
Dessa união nasceram os dois primeiros filhos em Viena:
Luiz Xavier de Barros (1887)
Viktor Franz Xavier de Barros (1888), meu avô.
Embora tenham nascido no coração da Europa, a família manteve a ligação com o Brasil. Em 1892, Emma e os dois filhos pequenos atravessaram o Atlântico para se estabelecerem em São Paulo, na Avenida Tiradentes. Lá, o nascimento de Viktor foi formalmente registrado no estado de São Paulo, confirmando a sua cidadania brasileira e a sua linhagem como neto do Barão de Tatuí.
Folha 152 do 25° livro do registors de nascimento do Estado de São Paulo.Folha 152 do 25° livro de registros de nascimento do Estado de São Paulo (1.1.2.adiante) :
"....Victor Francisco Xavier de Barros, filho legitimo de Dr. Bento Xavier Paes de Barros e D. Emma Körmendy de Barros, residentes a Avenida Tiradentes numero quinze, paterna do Barão de Tatuhy (vivo) e de D. Gertrudes Aguiar Paes de Barros (falecida), residente nesta Capital, materno de José Eduardo (Joseph Eduard) Körmendy (vivo) e de D. Johanna Salmutter (falecida) residente Vienna de Austria..."
feito em Santa Ephigena, 23 de Julho 1892
Em 1893, nasceu o terceiro filho, Paolo Xavier, no Rio de Janeiro.
Contudo, por volta de 1895, a história tomou um rumo inesperado: Emma decidiu retornar à Europa com os filhos. Sem um divórcio , mas vivendo em continentes diferentes, os 'de Barros europeus' cresceram entre Viena, Hungria, Alemanha e Suíça. Viktor e Luiz frequentaram o renomado colégio da Abadia de Melk, perto de Viena, recebendo uma educação classica enquanto o Dr. Bento permanecia no Brasil, construindo uma nova vida, mas mantendo contato com os filhos através de cartas e cartões postais que guardamos até hoje.
Berlim, a Grande Guerra e o Exílio na Suíça
Após os anos de formação na Abadia de Melk, o destino de Viktor e Luiz levou-os a Berlim. Naquela época, o Império Alemão era o centro mundial da inovação técnica, e ambos decidiram estudar engenharia em suas prestigiadas universidades. Meu avô, Viktor, viveu em Berlim entre 1911 e 1915, presenciando o início da Primeira Guerra Mundial.
Em 19 de agosto de 1916, já engenheiro, Viktor casou-se em Berlim-Charlottenburg com a minha avó, Lucia Karoline Felicia Benesch. Eles haviam se conhecido nos famosos bailes de Viena, cidade onde ela nasceu, filha do arquiteto Gerard Benesch e neta do renomado gravurista e pintor Carl Barth.
No entanto, a vida acadêmica e social foi subitamente interrompida pela guerra. Em 1917, a situação tornou-se crítica: os Estados Unidos entraram no conflito e o Brasil rompeu relações com a Alemanha após ataques a navios brasileiros. Para o governo alemão, meu avô e seus irmãos deixaram de ser apenas residentes estrangeiros (brasileiros por nascimento) e tornaram-se oficialmente 'inimigos'.
Correndo o risco iminente de serem enviados para campos de detenção de civis, a família tomou uma decisão desesperada. Em agosto de 1917, dois meses antes de o Brasil declarar guerra formalmente, Viktor, seus irmãos e sua mãe, Emma, fugiram para a Suíça. Sob a proteção do embaixador brasileiro, que assumiu a guarda dos cidadãos do Brasil na Alemanha através do território suíço, eles encontraram refúgio em Berna.
A Suíça era um país neutro, mas não era um refúgio fácil. A família enfrentou a escassez de alimentos, o racionamento de pão e leite, e a epidemia de gripe espanhola em 1918. Naquela época, a sociedade suíça dividia os imigrantes entre 'desejáveis' (turistas ricos e militares internados) e 'indesejáveis'. Felizmente, por serem engenheiros qualificados e falarem perfeitamente o alemão, os irmãos de Barros conseguiram integrar-se e trabalhar, transformando o que deveria ser um refúgio temporário em um novo capítulo permanente de suas vidas.
O Destino Selado pela Crise e a Nova Vida na Suíça
Com o fim da Grande Guerra, a família de Barros viu-se diante de uma encruzilhada. O projeto original sempre fora o retorno ao Brasil, mas a realidade da pós-guerra impôs novos rumos.
O irmão mais novo, Paolo Xavier, foi o único a concretizar o plano. Por volta de 1919, ele regressou ao Brasil com a sua esposa, Hilde Biedermann, reunindo-se finalmente com o pai, o Dr. Bento, e estreitando laços com os meio-irmãos Tito e Affonso. Através das cartas que Paolo enviava daquela época, sabemos que ele insistia para que os 'Berner-de Barros' (os de Barros de Berna) também fizessem a viagem de volta. Mais tarde em 1935 seguiram seus sobrinhos, Tilly (Mathilda) e Lulu (Luis) filhos do seu irmão Luiz. Paolo vive em São Paulo até a morte em 1981.
Contudo, para Viktor e Luiz, a vida na Suíça já havia criado raízes profundas. Ambos estavam estabelecidos em carreiras de prestígio:
Luiz trabalhava com sucesso na Brown Boveri (ABB), em Baden, Zurique
Meu tio-avô Luiz envia a esposa e os filhos (Luis e Mathilhda) para o Brasil em 1935, garantindo o status legal deles como brasileiros. Inicialmente, eles se hospedam com Paulo, irmão mais jovem de Luiz. Enquanto isso, Luiz permanece em Baden, onde trabalha com sucesso na ABB até sua morte em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.
Viktor, meu avô, iniciou uma trajetória de sucesso na Zent (Zentralheizungsfabrik Ostermundigen), a maior fábrica de sistemas de aquecimento de Berna na época. Como membro da diretoria, ele viajava frequentemente para as filiais em Milão, Paris e Nice.
A
estabilidade profissional e a segurança das suas famílias na Suíça
contrastavam com a incerteza de um recomeço do outro lado do oceano.
O golpe final no sonho do retorno veio com a Crise
de 1929.
A Grande Depressão e o colapso do mercado do café devastaram a
economia brasileira.
O Brasil entra na guerra (agosto de 1942). Os documentos (passaportes brasileiros) não podem mais ser renovados. Ao mesmo tempo, Viktor dá entrada em seu pedido de naturalização suíça e obteve cidadania suiça em 1945, junto ao seu filho Pedro. Viktor faleceu em 1969 em Berna, Suiça.
O retorno, que antes era uma questão de tempo, tornou-se financeiramente inviável. Os planos mudaram, o 'livro brasileiro' permaneceu fechado por décadas para este ramo da família, e os "de Barros" tornaram-se definitivamente parte da história suíça.
Foi essa sucessão de eventos — da guerra à crise econômica — que determinou o meu nascimento na Suiça, mantendo viva, em uma pequena caixa de documentos em Berna, a memória da nossa "metade/descendencia brasileira".
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| Dr. Bento Xavier de Barros e Emma Florentina Maria von Körmendy |
| Paulo Xavier de Barros (n.1893), meu tio-avô |
Sobre meu bisavô e seus filhos

1. Luiz Bento Paes de Barros (1887 Vienna, Austria - 1942 Zürich, Suiça), casado com Mathilda Carolina Brentner. Pais de
- - Luis (Lulu), nascido em Viena de Austria em 1911 casado com Leah Hennig em Sao Paulo, onde faleceu em 1948, provavelmente sem geração
- - Silvio,nascido em Baden na Suiça em 1917, falecido jovem em Suiça
- - Mathilda, nascida Baden, Suiça em 1920, casada com Renato Cintra em Sâo Paulo, sem gerãçao.
2.Victor Franz Xavier de Barros (1888 Vienna Austria-1969 Berna, Suiça) casado com Lucia Benesch-Barth tinham 4 filhos:
- - Viktoria nascida me 1918, em Berna, Suiça, casada, 3 filhos, falecida em 2013
- - Pedro nascido em Berna, Suiça 1921 e falecido em 1997, casado, 1 filha
- - Silvia, nascida em Berna Suiça em 1924, (minha mâe), falecida em 2005 casada, 2 filhos,
- - Felicitas nascida em Berna, Suiça em 1933, casada, 3 filhos, Suiça
3. Paulo Xavier de Barros (1893 Rio de Janeiro-1981 em São Paulo) foi casado com Hilde Biedermann. Desde 1920 ca. viveram em São Paulo até a morte de ambos. Sem geração.
Foram pais de :
5. Affonso Xavier, nascido em São Paulo em 1895 e falecido em 1980, casado, 1 filha Lucila, sem geração
6. Tito Xavier 1899, nascido em São Paulo e falecido em 1979, casado com 4 filhos (Caio, Yone, Maria Luisa" Lisa" e Sergio. (seus netos - os meus primos em São Paulo e região - me einviaram muita informação sobre a familia e sempre os agradeço !). Tito faleceu em 1979.
7. Waldemar nascido em São Paulo em 1902 e falecido em 1974. , casado, tem pelo meno um neto do que eu sei.
Paolo Xavier de Barros, nascido em 1893 em Rio de Janeriro era o ultimo filho do Dr. Bento Xavier de Barros a falecer em 1981.
Leia mais sobre os filhos cartão postal 1904


Boa tarde, só por curiosidade,talvez seja possível estabelecer uma conexão com um passado mais recente,Minha avó,Esmeralda Ferraz de Campos tinha um primo,Jo´se Ferraz de Campos que casou-se com Virginia e tiveram dois filhos Jovit e Itá Ferraz de Campos.Esye ultimo em 1037 casou-se com Sylvia Paes de Barros(filha de Fabio Paes de Barros e Sylvia Almeida Paes de Barros).Será que ela faz parte deste ramo familiar?Itá Ferraz de Campos foi um famoso jornalista da Gazeta (Cásper Libero) e fez parceria com Otávio Frias de Oliveira (Folha de São Paulo) para recuperar a Fundação Cásper Líbero nos anos 60. JOSÉ DANIEL FRADESCHI ,
ResponderExcluirItá Ferraz de Campos casou-se em 1937,na igreja Matriz de Higienópolis ( São Paulo ) com Sylvia Paes de Barros.
ResponderExcluirBoa tarde Daiel
ResponderExcluirQue interessante ! Obrigada pela informação. Escrevei no postagem sobre Rafael de Aguiar Barros que procuro mais informação sobre os seus descendentes. Entre eles tem Fabio Paes de Barros casado com Sylvia Almeida. ( https://ospaesdebarrossaopaolo.blogspot.com/2011/09/avenida-paes-de-barros-mooca-historia.html )
Contate-me : barao.tatui@gmail.com
Cordialmente Tiffany
Olá, minha família toda é PAES DE BARROS
ResponderExcluirque legal ! Efeitivamente tem muitos Paes de Barros de varios ramos. Qual o seu parentesco ?
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