“Cada pessoa tem a sua historia. - Cada pessoa tem uma familia. - Cada familia tem origems. - Você não é apenas o que você imagina que é!"


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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Emma de Barros - Emma Maria Florentina von Körmendy ( 1861-1953) CAPITULO 1 - origens

A "BRASILIANIDADE" JURÍDICA E AS ORIGENS DA FAMÍLIA KÖRMENDY-BARROS
A "brasilianidade" na minha família era uma história jurídica e não cultural. Os "brasileiros" na minha família foram o meu avô Viktor Franz Xavier, os seus irmãos Luiz Bento e Paulo Xavier como os seus respetivas mulheres austriacas, e a mãe deles, a hungara Emma von Körmendy (ou Emma de Barros). Culturalmente, meu avô e seus irmãos  foram europeus, criados na cidade de Viena e com a cultura húngara por parte de Emma que foi criada na Hungria.
A cidadania brasileira era o ponto central no histórico da nossa família, que é composta por muitas trajetórias diferentes e é uma esfera completamente diferente, que não tem nada a ver com a lavoura ou com o fluxo migratório de subsistência. Ao contrário!  Mostra o percurso de uma diaspora brasileira, bastante singular. Mostra como as pessoas podem ter conexões históricas com o Brasil sem necessariamente se identificarem com os aspectos mais controversos do passado.
A breve passagem (cerca de 3 anos) da minha bisavó húngara pelo Brasil não é um detalhe irrelevante, mas sim o evento-chave que desencadeou o restante da história, que em nossos olhos tem relevância e singularidade da narrativa. Essa narrativa não engloba apenas os 3 anos de sua permanência física em solo brasileiro, mas sim os 10 anos (1885–1895) de toda a saga do casal, desde o encontro em Viena até a partida definitiva do Brasil.
Ao deixar o Brasil, Emma não leva consigo a cultura do café ou os costumes paulistas, não. A sua cultura era europeia. Ela leva consigo a certidão de casamento e com isso o passaporte brasileiro. Durante as turbulências da Primeira Guerra Mundial e a dissolução do seu império natal (1918), ela e seus filhos não se tornam apátridas nem cidadãos de repúblicas europeias falidas: juridicamente, eles são brasileiros no exterior.
Inicia esta história entre os anos 1885-1889 na cidade de Viena, onde Emma von Körmendy, com 24 anos, conhece o Dr. Bento Xavier de Barros, de 25 anos, filho do barão de Tatuí, um membro da elite de São Paulo, brasileiro, vindo para estudar medicina forense com os então famosos professores Eduard Ritter von Hofmann e Theodor Billroth. Na época, a cidade de Viena era o topo pela medicina e ciência. 
Para entender QUEM era Emma de Barros, née von Körmendy, é necessário conhecer a história dos seus pais e da Hungria, como a do Império Austro-Húngaro de então.
ORIGENS
Emma Maria Florentina von Körmendy nasceu em 2 de outubro de 1861 em Pinkafő, então Hungria. Ela foi a oitava criança dentro dos 11 filhos de Josef Eduard von Körmendy e de Johanna Salmutter.
Johanna, a mãe de Emma, descendia da família Salmutter, residente em Kindberg, na Estíria, parte da Áustria. Os Salmutter pertenciam aos Hammerherren (os "senhores dos martelos"), uma elite tradicional e influente que controlava a mineração e o processamento de ferro na região entre os séculos XVI e XIX. Esta atividade siderúrgica moldou profundamente a história local e ligou de forma indelével o passado familiar e a vida dos avós maternos de Emma a esta célebre classe de industriais.
A própria Estíria, que hoje integra o território da Áustria, carrega uma identidade singular moldada pelas suas origens medievais como uma antiga zona de fronteira do Sacro Império Romano-Germânico. Foi nesse cenário estratégico que os Salmutter e os restantes Hammerherren se ergueram como figuras fundamentais para o desenvolvimento económico e cultural de Kindberg, deixando um legado que permanece visível até aos dias de hoje através das imponentes casas senhoriais que ainda pontuam a paisagem da região. O casarão dos Salmutter ainda existe.
Em vez disso, seu pai, Josef Eduard de Körmendy, era húngaro e pertencia à "gentry", a média e pequena nobreza que formava o corpo principal da nobreza normal da Hungria. Ele nasceu em Németbóly, no comitato (condado) de Baranya, uma região estratégica marcada pelo longo domínio otomano e pelo posterior repovoamento promovido pelos Habsburgos. Josef Eduard era filho de um jurassor (juiz) e Komitatskomissär (comissário do comitato). Na Hungria da época, esses cargos públicos e jurídicos eram prerrogativas exclusivas da nobreza provincial. Esse fato, por si só, demonstra que sua família tinha grande importância e prestígio local.
É importante saber que o Império Austro-Húngaro foi uma monarquia dual que uniu duas grandes nações da Europa Central sob um único monarca, a Dinastia de Habsburgo. O Império Austríaco e o Reino da Hungria tornaram-se entidades constitucionalmente iguais.O território foi dividido pelo rio Leitha (conhecido como Cisleitânia e Transleitânia): A Metade Austríaca: Com capital em Viena, abrangia povos como austríacos, checos e polacos. O monarca governava esta parte como Imperador. A Metade Húngara: Com capital em Budapeste, o território era o Reino da Hungria, governado pelo monarca como Rei. Incluía terras da coroa como a Croácia-Eslavônia.
Áustria e Hungria tinham parlamentos, governos e constituições independentes. Partilhavam apenas três pastas ministeriais: Negócios Estrangeiros, Assuntos Militares e Finanças.
A Estíria (Steiermark, em alemão) era uma região que pertencia à metade austríaca do Império, localizada no sudoeste da atual Áustria. Fazia parte dos Países Hereditários dos Habsburgos originais. Era um ducado (Herzogtum Steiermark) central dentro da Cisleitânia. A sua capital era Graz e a sua população era maioritariamente composta por alemães austríacos, com uma forte minoria eslovena na parte sul da região (Baixa Estíria). Como território austríaco, a Estíria estava sujeita diretamente às leis e à administração de Viena.
A GENTRY HÚNGARA
O termo "gentry" pode soar estranho para quem não conhece a história húngara, mas ele é a chave para compreender a identidade social de Emma Maria Florentina. No Brasil Imperial ou na República Velha, a elite consolidava-se por títulos outorgados pelo Imperador (como os Barões do Café) ou pelo puro poder econômico dos latifúndios. Na Hungria, a dinâmica era diferente: a gentry (birtokos nemesség) não dependia de títulos de corte — como Conde ou Duque — para exercer sua soberania. Frequentemente chamada de bene possessionati (proprietários de posses modestas), essa fidalguia definia-se por seu estatuto jurídico.
A diferença entre a gentry e os magnatas (a altíssima aristocracia, como as famílias Esterházy, Batthyány ou Széchenyi) no reino da Hungria não era jurídica, mas sim de riqueza e poder. Por lei, qualquer nobre húngaro, por mais empobrecido que fosse, partilhava teoricamente dos mesmos privilégios que um príncipe. Ao contrario do Brasil tratava-se de um estatuto inteiramente hereditário, impresso no sangue e protegido por lei, que se estendia automaticamente até os trinetos e que permaneceu inabalável até a dissolução do Império em 1918.. Contudo, enquanto os magnatas donos de latifúndios gigantescos orbitavam a corte de Viena, a gentry possuía propriedades médias ou pequenas. Como suas terras não geravam grandes fortunas passivas, essa classe transformou-se no motor administrativo, político e jurídico do reino.

O avô paterno de Emma - comissário de comitato (komitatskomissär) e Juiz "jurassor" na Baranya - era um homem livre. Ele atuava como um elo essencial entre os grandes latifundiários — como a poderosa família Batthyány — e os camponeses subjugados. O cargo de jurassor era exclusivo: apenas os membros da gentry húngara podiam exercê-lo. Não eram homens pobres; possuíam propriedades de terra, embora longe da escala monumental dos Batthyány e de outros grandes clãs. No entanto, em termos de nobreza e estatuto social, eram absolutamente iguais a esses magnatas, diferenciando-se apenas por possuírem uma fortuna menor.
A educação era a maior arma da gentry. O latim foi o idioma oficial do Parlamento húngaro (Dieta) e da administração pública até 1844. Dominar o latim separava a elite política do povo comum e servia como resistência cultural contra a centralização de Viena. Para navegar no Império, esse grupo dominava o latim para as leis, o alemão para se comunicar com a corte austríaca, e o húngaro (ou dialetos locais) para gerir suas terras e as assembleias provinciais. Sendo especialistas em Direito, eles controlavam os tribunais como juízes e advogados, blindando seus privilégios locais.

Essa combinação de liberdade jurídica e alta instrução fez da gentry a classe que liderou os movimentos liberais e a Revolução de 1848 contra o Império Austríaco. As bases dessa revolta desenharam-se nas décadas de 1830 e 1840, coincidindo com um forte boom demográfico em Baranya. Para unificar a nação contra Viena e ganhar o apoio militar dos camponeses, a gentry foi obrigada a abolir o feudalismo e as obrigações servis. Com a abolição, a gentry perdeu a mão de obra camponesa gratuita. Ao mesmo tempo, o crescimento demográfico fragmentou as propriedades rurais entre muitos herdeiros. Longe de se renderem à decadência econômica, os jovens da gentry souberam se reinventar e assumiram um papel inesperado: eles se tornaram os líderes intelectuais, técnicos e executivos da própria Revolução Industrial húngara.
O grande polo dessa transformação foi a prestigiada Academia de Mineração e Florestas de Schemnitz/Selmecbánya (hoje na Eslováquia). Inicialmente, a gentry via o trabalho técnico com preconceito, considerando-o "burguês". No entanto, já no início do século XIX, a Academia tornou-se uma das instituições de engenharia mais respeitadas do mundo. Ao perceberem que o conhecimento científico era o novo vetor de poder, as famílias nobres passaram a enviar seus filhos para lá.
Ao unirem o prestígio do seu sangue nobre à alta qualificação técnica, os jovens da gentry assumiram o topo da pirâmide industrial. Eles não eram operários, mas sim os engenheiros-chefes, diretores-gerais e tecnocratas que comandavam os grandes complexos de mineração, as companhias ferroviárias e as usinas metalúrgicas do país. No campo, lideraram a modernização criando indústrias agroalimentares de grande escala.



JOSEF EDUARD DE KÖRMENDY E O ESPÍRITO CIENTÍFICO
Josef Eduard de Körmendy (nascido em 1816) foi o reflexo exato dessa liderança tecnocrática. Em vez de se limitar ao passado do seu pai e dos avós (juízes na província rural), ele adquiriu uma sólida formação técnica como "montanista" .
Nota Histórica para o leitor brasileiro: Ao contrario do que o termo no Brasil poderia significar, na Europa o termo montanista (Montanist) designava um cientista e engenheiro de minas de altíssimo prestígio acadêmico. Formados em academias de ponta, esses profissionais dominavam a geologia, a metalurgia e a química de laboratório. Eles atuavam como tecnocratas e peritos oficiais do Estado, comandando a infraestrutura pesada, as ferrovias e a Revolução Industrial do Império Austro-Húngaro. Josef Eduard pertencia a essa elite científica urbana.
Joseph Eduard von Körmendy, da pequena nobreza húngara (filho do jurassor e comissário), era um cientista de minas (engenheiro de minas) de formação que hoje se pode descrever universitária.
Na década de 1850, aos 34 anos, ele já atuava como Eisenwerk-Inspektor na usina Theresien-Hütte, em Ternitz, na Áustria. Um Eiseninspektor era um engenheiro metalúrgico e perito oficial da ferrovia estatal austríaca (k.k. Staatseisenbahn). Era um cargo público de alta responsabilidade, que operava na transição entre o governo, a ciência e a nascente indústria pesada. Como a fábrica de Ternitz era a principal fornecedora de trilhos para o governo, a presença de Josef Eduard ali era obrigatória e estratégica: ele atuava como o líder técnico e fiscal regulador do Estado dentro da usina mais importante do país.
Em 1851, ele casa com Johanna Salmutter, filha de um noto Hammerwerker em Kindberg, de família abastada. O casal mora em Ternitz, onde nasceram os primeiros dois filhos (1852 e 1853).
Em 1854, Körmendy deixa Ternitz e muda-se para Wiener Neustadt. Wiener Neustadt e Viena são cidades totalmente diferentes. Enquanto Viena era a capital política e da corte, Wiener Neustadt — localizada a 50 km de distância em Niederösterreich — era o coração industrial e metalúrgico da Áustria, no centro entre a Estíria, a Hungria e a cidade de Viena.
Theodor Ponson, engenheiro civil de minas de nacionalidade belga e autor do principal tratado internacional sobre extração mineral de sua época (Traité de l'exploitation des mines de houille, 1852), era muito conhecido na época na Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha e no império dos Habsburgos. Ele trabalhou diretamente com Körmendy em Wiener Neustadt, um dos polos industriais e metalúrgicos mais avançados do Império Austríaco. Dessa colaboração prática nasceram inovações tecnológicas que lhes renderam a concessão de patentes exclusivas por um período de quatro anos na legislação imperial austríaca. O vínculo profissional consolidou-se em uma aliança pessoal definitiva quando Ponson tornou-se padrinho de batismo da filha de Körmendy, nascida em 1853, fixando formalmente o nome do renomado cientista belga nos registros eclesiásticos da família.
Em 1859, Joseph Eduard adquire e passa a explorar minas de carvão e antimônio nas proximidades de Szalónak e Mariasdorf, no leste da Áustria-Hungria, muito perto da cidade de Viena, mas parte do reino húngaro. Sob sua gestão, a extração de carvão é ampliada e as terras adjacentes são desenvolvidas, gerando empregos e transformando-se em um motor econômico para toda a região. Plantas técnicas, análises químicas detalhadas e o trabalho de laboratório definiam o ambiente intelectual em que os filhos cresceram.
O impacto da família foi tão profundo que ficou gravado na rocha: na história local da mineração (em área que hoje pertence à Áustria), os nomes dos túneis permanecem como um marco conhecido. quatro desses túneis de extração foram batizados com os nomes de seus filhos ( todos ainda existentes, mas desativados) . Ao assumir o controle e a administração da mina de antimônio em Mariasdorf (perto de Szalónak/Stadtschlaining), ele passou a trabalhar no casarão administrativo já existente no local, para onde em 1863 a família mudou-se.
Em 1869, estabelecido economicamente e como reflexo do sucesso dessa nova geração nobre e técnica, ele transformou aquela antiga residência de trabalho no "Antimonschlössl" ("O Pequeno Castelo do Antimônio"), uma vasta e imponente casa senhorial situada neste vale perto de Mariasdorf e Stadtschlaining, coroando-o com a famosa torre de estilo romântico, bem conhecido na região e ainda existente e em mão privada. Ali nascem mais duas filhas e, por fim, o caçula August, em 1874.
Em um ambiente cosmopolita e "aristocrático", os filhos cresceram dominando fluentemente três idiomas: o húngaro, o alemão e o francês. Ao todo, Joseph Eduard e Johanna Salmutter tiveram 10 filhos (8 filhas e 2 filhos), após a perda do primogênito logo após o nascimento em 1852.
Em paralelo ao crescimento da família, a filha mais velha, Aloysia (nascida em 1853), realizou em 1873 um casamento de grande prestígio social e político na região. Ela uniu-se a Franz Schmidt, filho de um abastado industrial que, em 1860, havia adquirido o histórico Castelo dos príncipes Batthyány em Szalónak. O casal fixou residência no castelo, onde Franz Schmidt consolidou-se como uma das figuras mais importantes e influentes da sociedade local, não somente como industrial, mas também como latifundista, porque o castelo tinha vastas terras.


No entanto, em 1873, a estabilidade financeira de Joseph Eduard foi duramente abalada pelo famoso Bankenkrach (o colapso da Bolsa de Viena). Naquela época, a operação de minas de grande porte dependia diretamente de linhas de crédito sustentadas por grandes credores. Com a eclosão da crise sistêmica, esses credores, tomados pelo pânico financeiro, exigiram o pagamento imediato e integral de todas as dívidas — uma exigência de liquidez impossível de cumprir naquele momento de contração de mercado. O nascimento do último filho, August, em 1874, coincidiu dramaticamente com este período.
OS SALÕES VIENENSES E O BILDUNGSBÜRGERTUM
Em 1881, Joseph Eduard von Körmendy transfere-se para a capital imperial, Viena, acompanhado de suas cinco filhas solteiras, incluindo Emma. Joseph Eduard estabeleceu-se na metrópole com o sólido estatuto de privatier. Longe de ser um refugiado econômico, ele era um homem que vivia de seus próprios rendimentos, capitais e investimentos privados decorrentes da liquidação de seus negócios minerais e industriais.
Viena, naquele final de século XIX, expandia-se justamente impulsionada por essa elite vibrante de privatiers, engenheiros e investidores. As irmãs Körmendy circulavam com naturalidade neste ambiente cosmopolita e multilíngue (dominando o húngaro, o alemão e o francês), onde o prestígio vinha da alta educação, do capital financeiro estável e da sofisticação cultural. Frequentaram os "salons" de cientistas e músicos.
Cabe talvez explicar que estes salões não eram como os saraus da elite em São Paulo. Enquanto em Viena os salões se fragmentavam e se especializavam por afinidade ideológica e intelectual (reunindo pessoas que pensavam igual), em São Paulo os saraus da elite cafeeira eram muito mais homogêneos e familiares. O sarau paulista funcionava como um bloco único da elite agrária para celebrar a si mesma, sem essa profunda divisão entre o salão do "cientista radical", o salão do "nobre conservador" o o salão do "artista de vanguarda" que Viena possuía.
Os Körmendy não foram da classe da alta aristocracia austríaca; como gentry húngara, eles faziam parte do "Bildungsbürgertum", da classe alta da burguesia cultural na cidade de Viena. O Ponto de Encontro não era a "família", mas a Ciência e a alta educação como Niveladora Social. Enquanto os salões aristocráticos de Viena focavam em títulos de nobreza e os literários em filosofia, os salões de interesse científico criaram uma ponte inédita com o Bildungsbürgertum vienense: funcionários públicos de alto escalão, médicos, químicos e intelectuais urbanos que acreditavam que o status vinha do conhecimento (Bildung) e não do sangue.
Nos salões vienenses voltados à ciência e à economia (como os círculos frequentados por geólogos e membros da Academia de Ciências), a hierarquia tradicional se dissolvia. Como gentry húngara, Körmendy possuía um status jurídico, político e simbólico absolutamente único dentro do Império Habsburg. Em Viena, ele não era visto apenas como um "nobre de província" ou um simples "engenheiro". Ele carregava o peso histórico da nobreza húngara, o que lhe garantia um magnetismo e privilégios especiais nos salões.
Na Hungria, a nobreza não era apenas um título; ela era a própria encarnação jurídica do Estado. A gentry (a média nobreza territorial) governava os condados locais com imensa autonomia frente ao Imperador em Viena. No século XIX, o nacionalismo húngaro estava em plena efervescência e era visto com enorme fascínio romântico em Viena. A gentry era considerada a "espinha dorsal da nação húngara", guardiã da cultura, da língua e do orgulho Magyar. Nos salões liberais e intelectuais de Viena, esse cientista-gentry trazia um ar de "vanguardismo político". Ele debatia a modernização industrial de suas minas não apenas pelo lucro, mas como um projeto patriótico para erguer a Hungria econômica e politicamente dentro do Império.

O ENCONTRO NO DISTRITO UNIVERSITÁRIO
Foi exatamente nessa esfera — o vibrante e abastado meio dos intelectuais e profissionais liberais de Viena, muito próximo ao distrito universitário — que o caminho de Emma von Körmendy cruzou com o do Dr. Bento Xavier de Barros, o jovem médico paulista que viera da aristocracia do café para se especializar na medicina forense.
A capital austríaca já operava sob uma modernidade consolidada, visível na própria dinâmica de suas ruas: na recém-construída Ringstraße, as mulheres circulavam e flanavam com uma independência pública inédita, integradas a uma sociedade há muito habituada ao consumo diário de música, teatro e artes. Tratava-se de um ambiente amplamente cosmopolita, cuja governança e vida cultural não dependiam de elites agrárias.
Na década de 1880, a Faculdade de Medicina da Universidade de Viena era considerada a capital médica do mundo, vivendo o auge da chamada Segunda Escola de Medicina de Viena. O ensino baseava-se em uma integração revolucionária entre o trabalho em laboratório, a patologia anatômica e a observação clínica direta no monumental Allgemeines Krankenhaus (Hospital Geral).
Foi nesse ambiente de excelência que o Dr. Bento Xavier de Barros aprofundou seus estudos sob a influência direta de dois dos maiores luminares da ciência europeia:
Theodor Billroth (1829–1894): Pioneiro absoluto da cirurgia moderna, Billroth transformou a prática médica ao introduzir o mapeamento estatístico de resultados e a análise pós-operatória rigorosa. Suas inovações na cirurgia gástrica e esofágica eram indissociáveis de um profundo humanismo e de uma refinada erudição cultural — ele próprio era um músico talentoso e amigo íntimo de Johannes Brahms, personificando o ideal vienense de que a alta ciência acadêmica deveria caminhar lado a lado com a sofisticação intelectual.
Eduard Ritter von Hofmann (1837–1897): Considerado o pai fundador da medicina legal moderna, Ritter von Hofmann era o diretor do Instituto de Medicina Legal de Viena. Sua abordagem revolucionou os tribunais ao transformar a autópsia e a análise de vestígios em disciplinas científicas exatas, fundamentais para o esclarecimento de crimes. Seu tratado de medicina forense era a bíblia jurídica e médica da época.
RESUMO CAPITULO 1
Emma von Körmendy foi uma jovem da elite cultural austro-húngara, vinda de uma família com sólida tradição jurídica, científica e industrial da antiga média nobreza húngara (gentry). Bem instruída, ela dominava fluentemente três idiomas e frequentava o meio acadêmico do distrito universitário de Viena (salões).
O Dr. Bento Xavier de Barros, brasileiro, membro da extensa família Paes de Barros em São Paulo não era, portanto, apenas um herdeiro de fortunas agrárias flanando pela Europa; ele - falando português e francês estudou o alemão para estudar e era um cientista e medico, integrado ao que a cidade de Viena produzia de mais avançado em termos de lógica, evidência e jurisprudência médica.

O que os une não é a cultura dos seus países nativos, mas a 'igualdade' da classe social, a educação e a nova visão de modernidade e ciência da época..Foi o encontro de dois iguais no mundo intelectual cosmopolito na cidade de Viena da epoca.
Esta epoca não era a imagem da  Belle Époque — cartolas, vestidos longos, valsas e uma elite flutuando em nostalgia. Não ! Era o inicio da "Wiener Moderne".  A  juventude burguesa e acadêmica de Viena entre os anos de 1885 e 1892, encontraria uma energia completamente diferente. Não havia melancolia de fim de festa. Havia pressa, tesão pelo futuro e uma revolta silenciosa contra a hipocrisia da sociedade da "aparencia". .O mundo antigo, baseado nas aparências, na moral rígida  e nas convenções sociais sufocantes, já não fazia mais sentido. Para essa nova geração, a palavra de ordem era : autenticidade. Significava que se a nova ciência  dizia que os seres humanos tinham um mundo interior complexo e desejos reais
Exigiram uma modernidade real, que passava por um desejo  de falar abertamente sobre psicologia, desejos, o corpo humano e as angústias reais, sem filtros moralistas. Mulheres que desafiavam o destino traçado pelas famílias, lutando pelo direito de estudar (os primeiros colégios voltados para preparar mulheres para a universidade surgem exatamente aí, entre 1888 e 1892) e de escolher como e com quem viver. Entre 1885 e 1892, a medicina  na Viena mudou o foco: passou da autópsia de cadáveres para a investigação dos tecidos vivos e do sistema nervoso. A física e a medicina andavam de mãos dadas com a psicologia e a arte da época e assim o "sentido da vida".O médico brasileiro, embora filho de um barão do café, foi profundamente impactado por essa nova era em Viena; Ao longo de quase cinco anos, ele viveu a fundo essa atmosfera de transformação e, ao lado de Emma e de seu espírito livre e hungaro (!), compartilhou o mesmo desejo de modernizaçao e visões sob convenções sociais do passado, moldando ali não apenas sua carreira na medicina forense, mas sua própria visão de vida.

Em breve mais sobre Emma no CAPITULO 2 - O Período Vienense e a Primeira guerra mundial e a os passeportes brasileiros.


quinta-feira, 29 de junho de 2023

Dr. Bento Xavier de Barros - Crônica de 2 casamentos

Texto por Tiffany, 29.06.2023

Isso faz parte da historia dos meus bisavós: 
o Dr. Bento Xavier de Barros e Emma von Körmendy no periode entre 1885-1895. Uma historia que não é conhecida no Brasil porque ficava somente com nos descendentes na Suiça. Ela nós liga ao Brasil junta a esta familia e a sua historia como liga o Dr. Bento à nossa historia da Europa com as visões de grande mudança e acontecimentos !

É grande dificuldade encontrar no archivio do cartorio civil de Santa Ifigenia na cidade de São Paulo, Brasil, o registro original do casamento dos meus bisavós maternos que são o Dr. Bento Xavier de Barros natural de Itu SP, Brasil e Emma Florentina Maria von Körmendy, natural da Austria, mais precisamente do reino da Hungria, entao parte do Império Austro-Húngaro. 
No cartorio civil de Santa Ifigenia em Sao Paulo, eles dizem não encontrar o registro !

Nós descendentes na Suiça témos a tradução do português em alemão da certidão do ano 1892 do casamento civil e vamos falar de isso na primeira parte de este trabalho.

Um pequeno resumo sobre Emma von Körmendy e o Dr. Bento Xavier de Barros :
Bento Xavier de Barros, filho do barâo de Tatui e de Gertrudes de Aguiar, após os estudos de medicina em Rio de Janeiro em 1884 foi para  Europa na cidade de Viena de Austria em 1885 para seguir cursos em medicina forensica com os grandes e famosos Professors Eduard Ritter von Hofmann, fundador da medicina forense cientifica e Theodor Billroth hoje considerado o pai da cirurgia abdominal moderna. 
Viveu 4 anos em Viena onde conheceu Emma von Körmendy, filha de Josef Eduard von Körmendy, da gentry hungara (pequena ou media nobreza hungara), dono de minas de antimonio e carvao que foi tambem entre industriais que costruiram ferrovias na então Hungria.
Bento e Emma foram pais de 2 filhos em 1887 e 1888 que foram batizados na cidade de Viena. Foi o mesmo Dr. Bento que fez sim de ser registrado como pai de estes dois filhos nos registros de batismo nos livros de igreija na Viena de Austria o o que historicamente é um caso ( tambem de direito)  muito raro !
Com o advento da Repbulica no Brasil o Dr. Bento Xavier de Barros volta na cidade de Sao Paulo em septembro 1889.
Em 1892 Emma, mãe de seus dois filhos naturais e reconhecidos por ele, parte com os dois meninos de 4 e 5 anos em Maio de 1892 para Rio de Janeiro onde chegou em Junho. No mês de Julho eles casaram civilmente. 
Em 1895 Emma, apõs o nascimento de um terceiro filho em 1893 deixa o marido e o Brasil e volta na cidade de Viena onde os filhos viviam e foram educados.
Bento Xavier de Barros teve outra familia e 4 filhos em Brasil.

Sempre soubemos na Europa que Emma de Barros nunca foi divorciado e nâo casou 2a vez. Além que na epoca era dificilmente possivel divorciar. Efeitivamente ela faleceu bem idosa em 1953 e com 91 anos de idade na Suiça como viuva do Dr. Bento Xavier de Barros que havia falecido em 1945 em Brasil .

Ainda témos uma escritura de reconhecimento que nõs nunca entendemos porque existia. A explicação que témos hoje segue mais adiante.

Trocei nossas informações com os primos descendentes dele em Brasil. Eles são descendentes da segunda mulher do Dr. Bento. Comparamos com as informações deles, discutindo as varias historias. Eles sabiam que o Dr. Bento havia familia e outros filhos tido na Europa, mas ninguém deles sabia de nos descendentes na Europa e ninguém poderia-se explicar dois casamentos, jà que um divorico na epoca não era possivel.

Pesquisei os archivios de registros da igreja e nos cartorios civis no Brasil para saber mais.
 
A descoberta é muito interessante, veja a crônica:

Crônica

1).   23.07.1892 o casamento civil em Sânta Ifigenia Sao Paulo do Dr. Bento Xavier de Barros e Emma Florentina Maria Körmendy


A seguinte tradução em alemão de esta certidão do casamento civil do Dr. Bento Xavier de Barros e de Emma von Körmendy de Barros foi escrita em 08.11.1905 na cidade de Viena de Austria por um tradutor profissional jurado e faz parte do nosso archivio da família.

Ao fim da tradução o interprete jurado certifica que a tradução é literalmente identica ao original o qual foi emitido em dia 23 de Julho 1892 na cidade de Sâo Paulo. Ele certifica tambem que o original em português é anexado à traduçâo . Infelizemente este original da certidão em português foi perdido nos anos em nossa família e témos hoje somente a tradução.

Dado que no archivio do cartorio de Sâo Paulo (Santa Ifigenia) não pode ser encontrado o registro, parece que existe hoje somente a tradução em alemão de este certidâo que é no nosso archivo e que é a primeira prova do casamento entre Dr. Bento Xavier de Barros e Emma von Körmendy.


Seguem as fotografias da tradução desse certidão do casamento, emitido do cartorio civil de Santa Ifigenia, Sao Paulo em dia 23.07.1892..






nota  A tradução além do conteúdo descreve o tipo de documento com todos os detalhes como os logos impressos do cartório civil, os carimbos e marcas etc. 

Como dito antes, segue uma tradução do alemâo em português, feita pela autora (Tiffany) . Attencâo: é uma traduçao livre e não é perfeita, pois a língua materna dela não é o português mas sim o alemão. 

Traduçâo

da certidâo do casamento datada

de 23 de Julho 1892 que me foi entregue

por Emma Florentina Maria de Barros.


«Republica dos Estados Unidos do Brasil»

Distrito de Santa Ifigenia

./. brasão da Republica./.

Capital de São Paulo

Riccardo Ferreira da Costa

segretario e escrivão do Cartorio Civil


do lado esquerdo o selo official

«do cartorio civil de São Paulo»


« Certifico que hoje às 12h00 nesta cidade

na sala de audiências perante o

Juiz de Paz e Casamento, Júlio Alexandrino Esteves,

após o cumprimento das formalidades

casaram-se conforme à lei:

o Dr. Bento Xavier de Barros,

filho legítimo de Sua Excelência o senhor

Barão de Tatuhy ./. vivo./.

e de Donna Gertrudes Aguiar Paes de Barros

./. falecida./. 30 anos, solteiro,

natural deste estado, médico, residente

neste distrito e Donna Emma Florentina

Maria Körmendy, filha legítima de Josef Eduard

Körmendy ./.vivo./. e de Johanna Salmutter Körmendy

./.falecida./. 30 anos, solteira,

natural da Áustria e residente neste distrito,

conforme consta no protocolo lavrado

e assinado no respectivo livro, que se

encontra na minha posse e no meu

gabinete e do qual me refiro à

confirmação oficial do conteúdo.


Santa Efigênia 23 de julho de 1892

pelo [illegivel]

Joaquim Gonçalves da Cunha Paixao

escrivão de Juiz


a esquerda selo do Cartorio civil no valor de 200 Reis

sobre isso o carimbo:

registro civil Sao Paulo,

depois Alameda do Triumpho 52.

 

Citando meu juramento confirmo que a tradução

acompanhante é literalmente identica ao

original a ela anexado.

                                   Viena, 08 de novembre 1905«


A esquerda o selo :

Dr. Johann J. Joachim

intérprete austriaco jurado da lingua portuguesa

Viena de Austria, I. Köllnerhofgasse 3


a direito

sigla Dr. Johann Joachim


Fim do documento

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Observações, explicaçôes e historia 

Além de muitas publicaçôes nos jornais do 1892 onde se pode ler as proclamas primeiros e segundos de casamentos civis de varios nubentes, não foram encontrados nem os proclamos, nem a publicaçâo do casamento civil de este 23. de Julho.
A autora notou tambem que a certidâo de casamento tem falta da indicação do numero do livro de casamentos e o numero da folha da registração ! E como o intérprete jurado traduzia e descreveva tudo com muita precisão em 1905, não há dúvida de que essa informação sobre o livro e o numéro da registraçâo falta tambem no original da certidão, aquele em português !
Isso é bem curioso dado que o oficial do cartorio refere proprio ao registro do «respetivo livro e do protocolo » !

Isso poderia explicar porque hoje não podem encontrar o original no cartorio civil de São Paulo ? Tem milhares de caixas no archivio do cartorio civil. 
Além isso, os registos civis no Brasil não estão todos digitalizados ou indexados. Ainda existe um longo caminho a percorrer no que diz respeito à informatização completa dos registos civis das pessoas naturais.
Nesse sentido, pela falta de informatização e pelas dimensões continentais, 
encontrar um registo civil antigo não é algo tão fácil no Brasil. Saber, e encontrar, o local onde um registo de uma pessoa foi lavrado há mais de cem anos, e num momento histórico de muitos acontecimentos importantes e de transição, no Brasil, é um grande desafio.


Entende o caso de casamentos civis e a registração deles no Brasil na epoca

O casamento civil do Dr. Bento Xavier de Barros e de Emma von Körmendy era a unica forma legitima de um casamento no Brasil na epoca de 1892 ! (Decreto n.º 181, de 24 de janeiro de 1890) .
A sete de março de 1888, o Decreto n.º 9886128, (um decreto feito ainda na era imperial ) entrou em vigor em primeiro de janeiro de 1889, e fez cessar, em parte, os efeitos civis dos registos eclesiásticos ao instituir a obrigatoriedade do registo civil de nascimentos, casamentos e óbitos.
Todavia, ainda se dava especial importância aos casamentos religiosos que poderiam ser, inclusive, celebrados anteriormente aos civis, desde que registrados nos ofícios do registo civil, no prazo de três dias.

Existia uma transição entre os registos religiosos e os registos civis laicos desde 1874, que até para o povo brasileiro era difícil de sistematizar.
O povo, principalmente o leigo, grande maioria, não parece ter compreendido a profunda modificação que implicava numa Igreja Católica insatisfeita com a perda do poder de registadora dos atos e factos da vida civil. Ora, de um lado, estavam os párocos, que eram vistos também como verdadeiros funcionários públicos. Do outro lado, estavam os idealistas republicanos, ávidos pela proclamação república, que queriam a concretização da laicidade.

E desse modo, no ano 1889, adveio a República que não contou com excepcional entusiasmo popular no momento do seu advento, eifeitivamente foi um golpe militar seguido de um governo militar. 
As instituições do país foram totalmente desmanteladas como consequência da transição da monarquia para a república, e tiveram de ser refeitas do início.  Deodoro da Fonseca governou por 2 anos sob um governo provisório. Neste período, foi feita a primeira Constituição do Brasil, estabelecido o Congresso o sistema de a República Federativa — ou seja, as então Províncias do Império se tornaram Estados Federados à União. Enfim, os 5 anos entre 1989 e 1894, com a posse de Prudente de Moraes, o país viu os militares consolidarem a República, derrotar revoltas em todo o país, criar um Congresso e uma Constituição, alternar entre relativa democracia e ditadura militar.

Pouco depois a proclamaçao da Republica, o Decreto n.º 181, de 24 de janeiro de 1890, também chamado lei sobre o casamento civil, foi o grande marco para definir a obrigatoriedade do casamento civil no Brasil.

Antes desse decreto, que começou a vigorar desde o dia 24 de maio de 1890, os casamentos religiosos ainda continuaram a produzir efeitos civis diante da falta de regulamentação sobre as formalidades de celebração do casamento em ofício civil. Os nascimentos, casamentos e óbitos já eram registados por autoridade estatal, mas ainda havia o matrimónio religioso a produzir efeitos, o que incomodava muito os republicanos.
Portanto, a partir desse decreto, o casamento civil foi regulado de forma minuciosa, com a inserção de um procedimento preliminar de casamento, chamado de habilitação pré-matrimonial, obrigatório, bem semelhante àquele já existente no Direito Canônico. Essa habilitação era usada para não permitir casamentos religiosos cujos nubentes possuíssem algum tipo de impedimento.
Estabeleceu-se também, nesse decreto, a maneira como os cônjuges deveriam provar a existência do casamento, que se dava por meio de certidão do registo civil ou, na falta dessa, por qualquer outro meio de prova. Excetuavam-se a essa regra os casamentos estabelecidos anteriormente à entrada em vigor do Decreto n.º 181/1890 , que poderiam ser provados com a certidão extraída dos livros paroquiais ou, na falta desta, por qualquer outra espécie de prova  como se observa dos artigos 49.º e 50.º do respetivo decreto.

O Decreto n.º 181 de 1890 deixava claro que somente o casamento civil tornara-se válido no Brasil.

Em 1892 foi promulgada a Constitução da Repbulica e com isso a laicizão do Estado brasileiro.
O artigo 72.º, parágrafo 4.º diz:

“a República só reconhece o casamento civil, cuja celebração será gratuita [...] e nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial, nem terá relações de dependência ou aliança com o Governo da União ou dos Estados”.


Assim é certo que segundo as leis brasilerios do 1892
Emma de Barros, née von Körmendy, era legitima esposa do Dr. Bento Xavier de Barros. 
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2) As segundas provas do casamento do Dr. Bento Xavier de Barros e Emma von Körmendy, bisavós de Tiffany

- Dia 25.08.1887     Registro do batismo na cidade de Viena de Austria do filho Luiz Bento, (nascido em 15.08.1887),

circulado em vermelho à direita se pode ler o adendo feito em 1905  que confirma o casamento em Sao Paulo em dia 23.de Julho 1892 . No registro ele tem o nome em alemão porque não foi aceito um nome em português. O registro dos pais é evidente. Dr. Bento Xavier de Barros, filho do barão de Tatuhy e Emma von Körmendy, filha de Josef Eduard von Körmendy..


registro do batismo de Luiz Bento de Barros na igreja "Alservorstadt" Viena de Austria
fonte: Matricula 


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- Dia 24.07.1888     Registro do batismo na cidade de Viena do filho Viktor Xavier (nascido em 02.07.1888) com o detalhe do adendo pelo casamento em Sao Paulo em dia 23.de Julho 1892. Tambem aqui é evidente quem são os pais. é especificado que o Dr. Bento Xavier de Barros assistiu ao batismo e que ele queria ser registrado como pai e foi reconhecido e confirmado por testemunhas. 


Registro de batismo na Igreja catolica "Maria Treu" Viena de Austria
fonte: matricula



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- Dia  23.07.1892      Registro do nascimento do filho Viktor no cartorio civil de Santa Ifigenia na cidade de Sao Paulo  (no mesmo dia do casamento dos pais). Parece que esta registraçâo foi feita imediatamente após o casamento.
[O que é interessante é que aqui tem o numero do livro e o numero da registração ! Fato curioso que aqui tem e na certdião do casamento não tem a indicação]

Seguramente existiou a mesma certidão do filho Luiz , mas nâo témos.


Certidão de nascimento do
Viktor Xavier de Barros, filho legitimo do
Dr. Bento Xavier de Barros ed
de Emma Körmendy de Barros





Republica dos Estados Unidos do Brasil


Estado de Sao Paulo- Districot de Santa Ephigenia Sao Paulo


Ricardo Ferreira da Costa……

......Certifico que a folha 152 e verso.
Do 25° livro de registros de nascimento sob o numero 1421


Se acha registrada uma criança de sexo masculino nascido em Vienna em 2 Julho de mil oito centos e oitanta e oito à duas horas e vinte minutos de manha, vai ler o nome Viktor Xavier, filho legitimo do Dr. Bento Xavier de Barros e de Emma Körmendy de Barros, residentes à Avenida Tirandentes numero quinze, paterna do S.or Barão de Tatuhy (vivo) e de D. Gertrudes Aguiar Paes de Barros (falecida), residentes n´esta Capital- e materna do S.or José Eduardo Körmendy (vivo) e de D. Johanna Körmendy (falecida), residente em Vienna de Austria.


Santa Ephigenia 23 de Julho de 1892

Pelo Official Joaquim Gonçalves da Cunha Paixão


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- Dia 16.05.1893    Registro do nascimento no cartorio civil da cidade de Rio de Janeiro  do filho Paulo Xavier, filho legitimo.

Nota: é claramente registrado, ..."Paulo Xavier, filho legitimo delle declarante Doutor Bento Xavier de Barros e de Emma Körmendy de Barros", 
mas note é falsa a indicação que os pais "casaram-se em Viena de Austria". O casamento civil do 1892 em Sao Paulo é evidentemente occultado  pelo pai. Isso  na evidente falta de documentos presentados perante o cartorio civil na Rio de Janeiro. Mesmo a declaração foi aceito assim no cartorio. veja embaixo 2)*). 
 Mas é certo que nâo existe um casamento deles na cidade de Viena !

Além disso, estamos convencidos que o endereço indicado na "rua D. Feleiciana" està errada no Mangue em Rio de Janeiro, sendo na epoca uma zona de moradores de baixa renda e nâo nós parece possivel que Emma morou aí  Sería o endereço do testemunho que teve comercio aí (?) ou talvez de uma parteira...
 
A questão é: porque o Dr. Bento nâo declarou o casamento em Sâo Paulo ? sería muito curioso que Emma deu luz à seu terceiro filho em uma zona assim ?
Vamos descobrir mais embaixo !


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- Dia 02 de Junho 1898 ,   Registro do batismo na igreja São Joaquim Estàcio na cidade de Rio de Janeiro 1898 do filho Paulo, (5 anos depois o nascimento)
"....Paulo, nascido em treze de Maio de 1893 filho legitimo de Bento Xavier de Barros e de Emma DE BARROS" , (sobrenome de casada).

batismo Sao Joaquim Estaciode, Rio de Janeiro 
 Paulo Xavier de Barros, filho legitimo do Dr. Bento Xavier de Barros e de Emma de Barros
fonte: familysearch




3) Escritura de Reconhecimento


20 de Junho 1895, 
Em 1895 o Dr. Bento Xavier de Barros fez uma escritura de reconhecimento para os três filhos com Emma perante o tabelião em Rio de Janeiro.

Esta escritura sempre foi um mistério para nós descendentes na Suíça. Não entendíamos porque existia.
Os filhos nâo necessitavam de reconhecimento ! Com o casamento civil do 1892 eles haviam-se tornados filhos legitimos e brasileiros com todos os direitos.

aqui um detalhe da escritura de reconhecimento dos filhos Luiz Bento (1887), Viktor Xavier (1888) e Paulo Xavier (1893), três anos após o casamento, perante um tabeliâo na cidade de Rio de Janeiro.

Escritura de reconhecimento 20.06.1895 perante tabeliâo em Rio de Janeiro por parte do Dr. Bento Xavier de Barros
fonte: familyarchive Bühlmann de Barros, Berna, Suiça




O que diz a escritura

Diz o Dr. Bento perante o tabeliâo e testemunhas que 

".. ele teve com Emma von Körmendy, no "estado de solteiro três filhos naturais" ,
indicando coretamente todos com o nome, data de nascimento e lugar de nascimento, e que os

"reconhece como filhos desejando que como tais seijam considerados perante escriptura e nos térmos da Resoluçao de 2 de Setembro de 1847"

 [ nota por TiffanyEste resoluçâo do 2 setembro declare que

 

Art. 1.° aos filhos naturaes dos nobres ficão extensivos os mesmos direitos hereditarios, que, pela Ordenação livro quarto, titulo noventa e dous, competem aos filhos naturaes dos plebeos» .

Harmonisavam assim que os filhos naturais de nobres tiveram os mesmos direitos como os outros. Antes somente filhos LEGITIMOS de nobres, poderiam herdar. O Dr. Bento era filho do barão de Tatui e neto materno do 1° barâo de Itu,  e com isso membro da nobreza brasileira.
Nos seguintes artigos a lei diz :

 

Art. 2.° O reconhecimento do pai feito por escriptura publica antes de seu casamento, é indispensável para que qualquer filho natural possa ter parte na herança paterna, concorrendo elle com filhos legítimos do mesmo pai.

 “Art. 3.° A prova de filiação natural, nos outros casos, só se poderá fazer por um dos seguintes meios: escriptura publica, ou testamento.”]

 

 Continue o Dr. Bento na escritura:

".....que os reconhece de sua libera vontade sem constringimento afim de que assim possam entrar na posse de seus bens direitos e assim gosarem como seus herdeiros bem como das privilegos que lhes competiram tão plenamente como se foram nascidos de legitimo matrimonio......." 


Para entender:

1) Trata-se de direito de herdade. Sem uma escritura publica o filho natural de nobres não podia herdar .

2) Declara o Dr. Bento os seus primeiros filhos como "naturais", como se o casamento civil não existia e "oculta" todos os registros em São Paulo!

Note que o filho Paulo Xavier nasceu um ano apos o casamento e nasceu legitimo.


Porque esta escritura «falsa» sobre filhos naturais em estado de solteiro ?  

Parece claro que o Dr. Bento sabia bem que a registração nos cartorios não era muito controlada e respeitada e que o casamento civil poderia ser ocultado.

Uma dificuldade importante para a implantação do sistema de registros civis no Estado de Sao Paulo era a falta de tradiçao dessa pratica no pais e o pouco interesse das pessoas a seguir a nova lei. Quanto ao casamento civil, uma queixa generalizada das autoridades locais e estaduais era a relutância do povo, a qual seria menor caso as autoridades eclesiastaicas nao negassem legitimidade ao casamento civil, combatendo-o abertamento muito tempo depois da Proclamaçâo da Republica


Num período da história do Brasil, final do século XIX e início do século XX, o casamento tradicionalmente conhecido era o responsável por instituir a família legítima.
"A família" era tratada com privilégios pela legislação e, consequentemente, pelo Estado. 
Se não fosse por vínculo matrimonial, a família não era considerada família.

A filiação não havida no casamento era considerada natural, quando fruto de pais não casados, mas sem impedimentos ao casamento (solteiros),
Era considerada ilegítima, advinda de pais que eram impedidos de se casar (porque foram jà casados e adulterinos).


Esses filhos ilegitimos sofriam restrições significativas de direitos, pois “esta distinção influi nos direitos hereditários dos filhos. O filho ilegítimo, ou natural, não poderia nem mesmo reclamar em juízo o seu estado de filiação. Ele era, inicialmente, excluído dos direitos sucessórios e, apenas posteriormente, passou a poder ter alguns direitos mitigados nesse sentido.

Hoje témos a seguinte explicação porque o Dr. Bento fez assim :

O que sabemos hoje é que jà em 1894,
2 anos após o casamento com Emma e 1 ano após o nascimento do terceiro filho Paulo Xavier,
o Dr. Bento Xavier de Barros tornou-se pai novamente.
Esta vez com outra mulher, Luiza Dauer, solteira, nascida 1870 em Brusque, Estado Santa Catarina, e filha de colonistas alemães de fé luterana.
Em 21 de fevreiro 1894, ca 9 meses apos o nascimento do Paulo Xavier, filho de Emma, nasceu Beatriz, a filha de Luiza Dauer.

Com uma situação politica nova e com muita incerteza e confusâo, a situação dos direitos dos varios filhos do Dr. Bento era mesmo bastante claro :
Somente para a igreja no Brasil, ele nâo era casado e teve na epoca de 1895 cincos filhos com 2 mulheres.
Somente para Igreja todos os seus filhos foram naturais e para a igreja ele poderia legitimar ou os da primeira ou os da segunda mulher com um casamento na igreja!

Em vez para as leis da Republica (e tambem Imperial, a registraçâo civil jà foi introduzida antes da Republica) o Dr. Bento era casado desde 1892 - e teve 3 filhos legitimos, os de Emma, e 2 ilegitimos fora do casamento, os de Luiza.!
Lembramos que o casamento civil era obrigadorio e um casamento religioso deveria ser registrado no cartorio civil.

Como resolver a situação dos filhos da segunda mulher em Brasil sem divorciar da primeira?

Observe que quase dez anos após a Constituição da República de 1891 (o que, significa até 1901 e ainda  mais ) -  a Igreja Católica ainda continuava a se opor aos casamentos civis, o que explica que a situação de direitos era muito caotica.

O Dr. Bento sabia bem que perante as leis novas na realdade era impedido de se casar com outra mulher. Mas teve esta situação que a sua legitima esposa, Emma, queria deixar o Brasil com os três filhos. Foi Luiza Dauer a mulher que era capaz de conseguira a sua vida em Brasil.
Um divorcio com Emma, o seu amor da epcoa em Vienna, era fora de questâo além que juridicamente não era facilmente possivél. Além do fato que um divorcio haveria tido o efeito contario do que necessitava Emma e os seus filhos para viver sem problemas na Viena de Austria, Europa.

Para poder casar-se mesmo com a segunda esposa – oviamente na igreja como era costume na sociedade de então- e reconhecer os 2 filhos "ilegitimos" ou "naturais" dela, (em fevreiro 1895 havia nascido Affonso Xavier, o segundo filho de Luiza Dauer), o Dr. Bento, "havia ocultado" o casamento civil com Emma e havia feito esta escritura de reconhecimento pelos seus 3 primeiros filhos declarando estes filhos como "naturais" em modo que anos depois os outros filhos da Luiza Dauer poderiam ser legitimados :
1. por casamento religioso ou porque nascidos dentro este casamento. 
2. com a registração tardiva de este casamento no cartorio civil.

Agora, 
- sabindo que ao mais tarde em 1893 o Dr. Bento havia outra relação como outra mulher assim que em fevreiro 1894 nasceu esta primeira filha de Luiza Dauer,
- e sabindo muito provavelmente jà em 1894 que Emma volta na Europa com os 3 filhos,
o Dr. Bento - muito astudo em bem responsavel- aprofitou desta confusão e fez desde o nascimento do seu terceiro filho Paulo em 1893, tudo o necessario em maneira que Emma teve toda documentação uficialmente valida pelo Brasil e assim tambem na Austria para ela poder viver sem problemas na Europa como uma mulher casada com três filhos legitimos (!) e regolamentou tambem os direitos hereditarios dos seus primeiros filhos.
Mesmo : ele os excluí da «legitimidade» declarando-os naturais em maneira que depois havia possibilidade para casar com Luiza Dauer e assim legitimados os filhos dela !

Em verdade, invertou juridicamente as situações das mulheres e filhos com a intençao de casar religiosamente com a Luiza !

Havia assim a possibilitade de resolver a situação de Luiza Dauer com a qual ele queria casar e viver e a dos dois filhos dela, jà nascidos em 1894 e 1895.

Ele muito provavelmente jà decidiou ao momento do nascimento do seu terceiro filho Paulo Xavier ultimo, filho com Emma, que ela não queria viver em Brasil. Sabia que um divorcio não era possivel !
Depois talvez para evitar um "escandolo" de um casamento civil  na "alta sociedade"   fez que prefire ocultar.
Somente isso pode ser a explicação pelo ocultamento do casamento em Sâo Paulo do 1892 e depois na registração do nascimento do terceiro filho onde foi indicando que se casou na cidade de Viena de Austria o que como sabemos nâo era verdade.  Ele certamente não precisou apresentar nenhum documento no Rio. Era um homem da elite. -  Além disso esta ultima registração era no cartorio civil na cidade de Rio de Janeiro que ninguém haveria encontrado ou pesquisado mais tarde em Sao Paulo e ninguém em Sâo Paulo pesquisou em Rio de Janeiro.

E assim o Dr. Bento Xavier de Barros tornou-se "bicasado".


Teve 2 esposas:

1. Emma von Körmendy,
com casamento civil em 1892  casamento uficialmente  obrigadorio desde 1890. esta esposa vivendo na Europa;

2. Luiza Dauer 
com casamento religioso em 1898 e  vivendo em São Paulo com ele.

Tive em tudo 7 filhos, (1 menina e 6 meninos):

3 filhos legitimos segundo as leis da Republica e as na Vienna de Austria, mas naturais segundo a igreja em Brasil, com a primeira esposa Emma !

4 filhos ilegitimos pelas leis da Republica, mas naturais em um primeiro momento perante as leis canonicas,
e  após o casamento religioso com Luiza, legitimados mais tarde 

Suponho que a registração tardiva dos nascimentos dos filhos no cartorio civil foi feito entre 1905-1910. 
Como ele havia casado religioso, ele nâo tive problemas em registrar os filhos da segunda esposa mais tarde como legitimos, mostrando o registro do livro da igreja como prova de casamento. 
Ninguém haveria pesquisado um casamento civil com Emma nos cartorios civis ! Porque ninguém sabia dela. Ela era na Europa,

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Dia 15 Junho 1898 casamento religioso do Dr. Bento Xavier de Barros e Anna Maria Luiza Dauer, na igreja de Santa ifigenia SaoPaulo, SP, Brasil, «sem impedimento»


fonte: livro de casamentos, igreja Santa Iphigenia, Sao Palo, (familysearch)



Este casamento foi publicado em dia 16 de Junho 1898 :


Mais uma curiosidade: 

Tem este fato muito curioso em Junho 1898 que explica muito bem a situação com os casamentos civis e religiosos no entâo Brasil

Emma de Barros (note o sobrenome de casada) em 02 Junho 1898 era de novo em Brasil.
Ela havia vindo na cidade de Rio de Janeiro, para o batismo religioso do  seu filho mais novo, Paulo Xavier, em Rio de Janeiro onde ele havia nascido 5 anos atràs. ( veja o seu batismo supra )
2 semanas após este batismo, em dia 15 de Junho, o legitimo marido de Emma de Barros, o Dr. Bento Xavier de Barros, casou -se com a outra mulher - sem impedimento -na igreja de Santa Ifigenia !

 

Batismos tardivos dos filhos de Luiza Dauer:

Em dia 06. de Maio 1900  ( 2 anos apos o casamento ) segue o batismo de todos os tres filhos: Beatriz, Affonso Xavier e Tito Xavier nascidos 1894, 1895 e 1899


Beatriz, nascida em 21.02.1894 - Affonso Xavier nascido em 08.02.1895 e Tito Xavier nascido em 10.08.1899, todos batizados em dia 06.05.1899 na Igreja Santa Ifigenia em Sao Paulo,
Todos filhos "legitimos" do Dr. Bento Xavier de Barros e de Anna Maria Luiza Dauer.



 

- dia 16.04.1910 . O batismo do 4. filho, Waldemar, nascido em 1902 foi celebrado somente em 1910. 
Todos os filho batizados na igreja de Santa Ifigenia em Sao Paulo onde quase toda a familia Paes de Barros casou e batizou.


Waldemar, nascido em dia 25.02.1902- batizados em dia 16.04.1910,
filho "legitimo" do Dr. Bento Xavier de Barros e de Anna Maria Luiza Dauer.




Fim da cronica dos 2 casamentos do Dr. Bento Xavier de Barros e algumas considerações:

Tudo este «embroglio» foi possivel pelos meus bisavós porque a implantaçâo da legislaçâo republicana secularizando os registros civis foi marcada por conflitos com o clero e pelo pouco controlo e além isso pela "desobediencia civil". 
Em geral os brasileiros identificavam a República como algo negativo. A maioria do povo não tinha direito de votar. Foi uma situaçâo mais acentuada nos primeiros 15 anos apos a Proclamaçâo, mas cujas consequeências se fariam sentir por varias decadas.

Até a edição do Decreto n.º 4.827 do ano 1924, o registro civil ficou disciplinado pelo Decreto n.º 9.886 do ano 1888, feito na era Imperial, assim como pelo Código Civil de 1916 e demais legislação correlata.

O clero resistiu desde a primeira regulamentaçâo em janeiro de 1890. Novo regulamento, mais rigoroso, foi publicado meses depois, tornando obrigatoria a realização previa do ato civil ficando sujeto a pena de prisão o padre que transgredisse a regra. Na mesma epoca, o batisimo e o registo paroquial perderam o valor legal e os registros civis de nascimentos e obitos tambem tornaram-se obrigatorios.

Trata-se de um curioso fato histórico que ilustra muito bem uma verdade inquestionável confirmada inúmeras vezes e nas mais diversas situações:
As mudanças de costumes e hábitos arraigados no tecido social não acontecem com a mesma facilidade com que são editadas normas e regulamentos pelo Poder do Estado.

Não se pode ignorar ném hoje a força dos costumes e a existência de clandestinidade e de situações inúmeras que ocorrem à margem do poder de um Estado em todo o mundo e se tal afirmação é verdadeira nos dias de hoje,
ainda mais efetiva era na época do advento da República do Brasil.

é evidente que a jovem república brasileira, com a edição de tal Decreto e com a tomada de diversas outras providências, pretendia assim afirmar a separação entre o Estado e a Religião, mas pouco regulamentou os "direitos" da familia e os filhos que foram regulamentados ainda segundo as "ordenações filipinas" e com isso segundo as antigas regras quando era a igreja a regolamentar os casamentos que foram feitos segundo as regras da igreja catolica !

A legislação brasileira sobre registro civil do século XIX, neste período houve inúmeras tentativas, por parte do Governo, de criar um sistema de coleta dos dados da população e esta ideia foi adiada inúmeras vezes.


O porque Emma deixou o marido e o Brasil é mistério.


Poderiam ser mil motivações. O que aconteceu entre 1892-1893 não sabemos.

1) choque cultural.
Témos quase certeza que a vida e realdade em Brasil para ela deve ter sido um choque cultural.
Uma mulher europeia acostumada aos salões urbanos e à vida cosmopolita na cidade de Vienna de Austria encontrou poucas semelhanças com seu estilo de vida em Sao Paulo. Esse universo das familias de élite em Sâo Paulo era provavelmente muito mais tradicional e hierarquizado. Para a filha de um gentry hungaro com certo estilo de vida e proveniente da dinâmica e intelectual de Viena, onde o status era cada vez mais definido pela educação e pelo mérito, esse ambiente poderia parecer muito fechado. Mesmo na Rio de Janeiro das revoltas de 1893 se for veramente aí. Como jà dito , nós témos muita duvida que ela "morou" em uma zona do Mangue no Rio de Janeiro para dar luz à seu terceiro filho. O meu bisavô Dr. Bento havia iniciado a trabalhar como medico legista na policia de Sao Paulo em Janeiro 1893 . Témos a impressâo que ele era em Rio para somente registrar o nascimento do Paulo Xavier.

2) O idioma, o clima e as novas condições de vida com a família do seu marido representaram, certamente, uma transição mais complexa do que ela e o Dr. Bento haviam imaginado em Viena. Sem saber o português e muito provavelmente conversando somente em francês e talvez alemão, ela teve vida muito isolada. Sem a sua propria familia (ela teve 9 irmaôs) e sem uma rede social era muito sozinha como "mulher estrangeira" na alta sociedade de Sâo Paulo.

3) Talvez ela veramente chegou no Brasil somente para legitimar os filhos ?
Mas a nossta pergunta à isso é : porque nasceu imediatamente um outro filho, 9 meses apos o casamento ?

4) O Dr. Bento conheceu Luiza Dauer jà no momento que Emma chegou em Brasil ? Nossa duvida permance : Porque ele se casou com Emma ?

Témos CERTEZA que o Dr. Bento tinha muito carinho e respeito para Emma comportando-se com muita responsabilidade e amor. Ele havia se casado com ela e legitimado os filhos, Todo foi registrado e documentado uficialmente na cidade de Viena assim como no Brasil (mesmo um tanto "oculto") o que significa que perante as leis e a moral ele era um homem muito cosciente (!) e responsavel do que fazia.
Talvez ao inicio eles - Emma e o Dr. Bento - pensassem que Emma ficaria no "novo" Brasil ?
Acreditamos de sim.
Eles tinham muito afeto e respeito um pelo outro.

Isso é a historia dos meus bisavós, o Dr. Bento Xavier de Barros e Emma von Körmendy, entre 1885-1895. Uma historia que não é conhecida no Brasil porque ficava somente conosco, os descendentes na Suiça.

Esta pequena historia revela uma modernidade humana incrivél na cidade de Viena de Austria em 1886-1889. A coragem de Emma de cruzar o Atlantico rumo ao Brasil e a retidão do Dr. Bento a casar-se com ela, desafiando as convenções da epoca. 

Essa historia une nos ao Brasil - junta á histoira desta familia - em um periodo de grande mudança na politica a na sociedade em Brasil e tambem na Europa.

Esta historia liga o brasileiro Dr. Bento, filho e neto de barôes - junto aos seus irmãos, primos e tios - à historia de Viena de Austria e os varios acontecimentos na Europa! Afinal além do Dr. Bento, outros 2 irmâos seus – Antonio e Fernão - foram estudar na capital austriaca. O verdadeiro legado para todos os descendentes (brasileiros e europeus) é esse período do Dr. Bento Xavier de Barros em Viena e a sua visão cosmopolita e progressista — uma visão de modernidade que, tragicamente, acabaria por se fragmentar diante do choque cultural e das duras realidades do Brasil daquela época."

Resumo:


1885, o Dr. Bento chega com 25 anos na Viena de Austria onde conhece Emma von Körmendy de 23 anos.

1887, nascimento e batismo de Luiz Bento, Viena de Austria

1888, nascimento e batismo de Viktor Francisco Xavier, Viena

1889 o Dr. Bento volta na Sao Paulo.

1889 BRASIL REPUBLICA

1892 JUNHO, chega Emma (29 anos) com os filhos Luiz Bento e Viktor Franz Xavier de 5 e 4 anos, em Rio de Janeiro

1892, 23 JULHO casamento civil em Sao Paulo do Dr. Bento e Emma.

1892, 23 JULHO, legitimação e registro civil dos filhos Luiz e Viktor de Barros em Sao Paulo,

1893, MAIO nascimento e registração no cartorio civil de Paulo Xavier de Barros, filho legitimo do Dr. Bento, em Rio de Janeiro,

1894
, 21 FEVREIRO nascimento de Beatriz em Sao Paulo, filha de Luiza Dauer com 24 anos na epoca, O Dr. Bento 35 anos.

1895, nascimento de Affonso Xavier em Sao Paulo

1895, JUNHO escriptura de reconhecimento para os filhos Luiz Bento, Viktor Francisco Xavier e Paulo Xavier de Barros em Rio de Janeiro como «filhos naturais»

1898, 02 JUNHO batismo de Paulo Xavier de Barros em Rio de Janeiro, filho legitimo

1898, 15 JUNHO casamento religioso "sem impedimento" do Dr. Bento e Luiza Dauer em Santa Ifigenia, Sao Paulo. Ele com 39 anos e ela com 28 anos.

1899, AGOSTO, nascimento de Tito Xavier, em Sao Paulo

1900, 06 MAIO batismo de Beatriz, Affonso Xavier e Tito Xavier em Santa Ifigenia, Sao Paulo,declarados filhos legitimos (pelo casamento canonico)...

1902, nascimento de Waldemar em Sao Paulo

1910, batismo de Waldemar em Santa Ifigenia, Sao Paulo.declarado filho legitimo pelo casamento canonico

1911, casamento religioso de Beatriz,como filha legitima do Dr, Bento….

1916, primeiro codico civil em Brasil, Brasil é e remane Republica.

Ao mais tarde seguiram em esta epoca os registros civis tardivos sem multa, dos filhos de Luiza Dauer como filhos legitimos, segundo os registros nos ivros da igreja,


Historico Casamento civil, decreto presidencial


ANOS 1890

14/06/1890 | Decreto 181 – Regulamentou a solenidade do casamento civil.

06/09/1890 | Decreto 722 – Tornou obrigatório o envio dos mapas estatísticos de nascimento, casamento e óbito à Diretoria do Serviço de Estatísticas.


ANOS 1910

25/01/1914 | Lei 2887 – Permitiu o registro de nascimento sem multa e com simples requerimento.

17/11/1915 | Lei 3024 – Prorrogou o prazo da Lei 2887, referente ao registro de nascimento sem pagamento de multa.

10/09/1919 | Lei 3764 – Regulamentou o registro de nascimento mediante despachos do juiz togado e de duas testemunhas assinando o requerimento.


ANOS 1920

06/11/1926 | Decreto 5053 – Aprovou os serviços de Registros Públicos.

24/12/1928 | Decreto 18542 – Regulamentou os Registros Públicos em geral: pessoas naturais, pessoas jurídicas, títulos e documentos, imóveis, propriedades literárias, científicas e artísticas.


ANOS 1930

24/11/1930 | Decreto 19425 – Ampliou o prazo para quatro meses dos registros de nascimentos ocorridos a mais de 30 quilômetros, sem comunicação ferroviária.

18/02/1931 | Decreto 19710 – Obrigou o registro de nascimento (sem multas e sem justificação para registro tardio).


OBRIGADA AOS PRIMOS E OS AMIGOS NO BRASIL




fontes pesquisadas:
  • tese 2008 Rodrigues Fabiana Cardoso Malha
  • Rodolpho Telarolli Junior 1983, A secularização dos eventos vitais no Estado de São Paulo
  • dissertaçao 2023 Nathalia Medeiros Sartori da Conceição
  • jusbrasil, artigos/inicio-do-registro-civil-01-de-janeiro-de-1889/668012729
  • documentos de casamento e batismos no familysearch e em " matricula Austria" 
  • Artigo: UMA BREVE HISTÓRIA DO REGISTRO CIVIL CONTEMPORÂNEO – Por Marcelo Gonçalves Tiziani, 2016
  • varios registros de casamento e batismo nas cidades de Viena de Austria, Sao Paulo e Rio de Janeiro (familysearch e Matricula).
  • jornais antigos